terrorismo doméstico, internet e racismo

a síntese de uma época

1. O ataque na Nova Zelândia

Em 15 de Março Brenton Tarrant, australiano, 28 anos, executou o atentado terrorista mais cruel e sangrento da história da Nova Zelândia. Atacou duas mesquitas, matou 50 pessoas, feriu 50 mais enquanto transmitia ao vivo pelo Facebook. Além do vídeo, Tarrant explicou as razões do ataque através de um manifesto carregado de argumentos anti-islâmicos, racistas e memes. O jornalismo internacional não demorou muito para perceber que era um ataque de um supremacista branco. Em cambio, o jornalismo mainstream local, em sua eterna degradação e sem a mais básica capacidade para ler um texto, instalou a tão velha e querida ideia de que o atacante era um "doidinho" influenciado pelos "videogames".

O atentado da Nova Zelândia não é um caso isolado. É um fenômeno de pelo menos dois países e tem a capacidade de se tornar "global". Pode atingir qualquer país a qualquer momento. A primeira coisa que há que entender é que este caso está vinculado a outro similar: o massacre de Utøya.

2. Brievik: o primeiro etnosoldado

Anders Behring Breivik perpetrou o pior atentado terrorista da história da Noruega em 22 de julho de 2011. Como distração colocou uma bomba na sede do Governo norueguês que detonou e danificou o edifício consideravelmente. Enquanto a polícia estava ocupada com este "detalhe", Brievik se dirigiu à ilha de Utøya onde assassinou 69 jovens que participavam de um acampamento do partido social democrata. Toda a juventude do partido no governo, os futuros administradores do Estado escandinavo.

Breivik acompanhou seu atentado do manifesto "2083 an European Declaration of Independece". Durante a primeira parte do livro, se dedica a analisar o que considera o estado atual de decadência da sociedade europeia e ocidental produto de anos de niilismo, consumo e perda das tradições culturais próprias de cada nação. Segundo Brievik, este processo coincide com a apropriação do poder político por parte de uma elite formada ao calor do marxismo cultural que instalou como ideologia hegemônica o multiculturalismo. O último prego no caixão da Europa tradicional seria a imigração massiva de árabes islâmicos aos países centrais do ocidente. Sob a política de integração entre a cultura nativa da Europa e o islã, para Brievik se esconde um processo de extermínio dos "povos originários" europeus. Esta infame ideia é conhecida como white genocide ou genocídio branco.

A narrativa de Brievik é clara: Europa tem que lançar uma nova cruzada contra o Islã. Mas desta vez, em seu próprio território. Se as cruzadas medievais foram em condição de "visitante" e para recuperar Jerusalém, a nova cruzada será em condição de local para proteger a pátria mãe. O ataque de Utøya se inscreve nesta narrativa. Não foi um tiroteio ao acaso como no caso dos ataques em escolas e universidades dos Estados Unidos. Bem que é muito possível que muitos fatores desses ataques e o de Brievik se sobreponham, este último tinha um fim específico. O atentado de Utøya foi um ato político. Brievik defende a ideia de que Europa é um conceito biológico e se considera a si mesmo um cruzado, um paladino, um defensor dessa ordem. Em palavras de Tarrant, o melhor discípulo de Brievik até agora, um etnosoldado.

3. Uma estratégia para o etnonacionalismo: a ordem templária descentralizada

Ler o manifesto de Brievik é uma tarefa complexa. Requer paciência e estômago. É uma viagem direta à mente de um assassino. O livro tem dois momentos muito claros. A primeira parte é o colocação do "problema" que enfrenta Europa e uma possível solução. A segunda parte é um diário íntimo de como preparou o atentado. Uma espécie de registro que pode servir como manual de instruções a futuros terroristas. Esta parte inclui vários conselhos, desde onde conseguir armas (legais ou ilegais), como fazer amigos no submundo do crime russo e como construir uma empresa fictícia para conseguir, sem chamar a atenção, os elementos necessários para fabricar explosivos.

Além disso, Brievik propõe como solução ao white genocide a criação de uma ordem de cavaleiros que se leve a sério a tarefa de destruir o inimigo islâmico. A ordem carece de um comando central, deve trabalhar de forma descentralizada e a coesão é ideológica. Cada soldado que se some às fileiras e abrace o objetivo de destruir o invasor islâmico em território ocidental e a ideologia que o ampara, passa a fazer parte da ordem. Em outras palavras: terrorismo e auto-gestão. O objetivo da ordem é, por um lado, golpear com força o inimigo e usar os atos de violência como uma arma para expandir este método pelo mundo, por isso cada ataque é um vetor para chegar aos próximos recrutas.

O texto é um chamado à ação direta: assassinatos, bombas e sabotagem, o que for necessário. Qualquer inimigo, seja um invasor ou um aliado do invasor (o marxismo cultural), é um alvo válido. A ordem se considera a si mesma a última barreira entre o "invasor islâmico" e o remanente caucásico originário da Europa. Esta é a resposta aos anos de políticas progressistas de integração. É o ponto zero para o levantamento de uma nova reação pela direita, ao globalismo e seus acólitos.

4. Brenton Tarrant: o primeiro discípulo

Em 15 de Março Brenton Tarrant entrou em duas mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia, e assassinou 50 pessoas e feriu 50 mais com sua arma automática. Antes de passar à ação o atacante montou um post em 8chan onde colou um link da transmissão ao vivo do ataque e deixou um manifesto. Diferentemente do de Brievik não há tanto análise sobre as causas filosóficas e políticas da decadência europeu-ocidental, mas sim um compêndio de ideias simples. Redigido em um inglês simples, expõe cada uma de suas razões para o ataque, a narrativa coincide com a de Brievik, a quem chamou de "sua maior inspiração": é um ataque enquadrado na cruzada entre o coletivo étnico europeu e o islâmico. Não é um atentado comum e corriqueiro, é um ato partidário contra o inimigo islâmico e seus aliados. Um ataque contra uma "força de ocupação" em palavras de Tarrant.

"Realmente só me inspirei no Knight Justiciar Breivik"

A conexão entre ambos os terroristas é a chave para entender o objetivo dos ataques. A partir do atentado de Tarrant, a "doutrina Brievik" deixa de ser uma simples teoria, um delírio de um nerd madrugador, para se converter na folha de rota de um novo movimento: o etnofascismo. A importância de um segundo ataque é que funciona para legitimar, de cara à sociedade, as razões de Brievik. Vejamos com muita atenção o seguinte vídeo.

Até a semana passada, Brievik era uma anedota, um número, um louco sem explicação. A partir de hoje é um líder e se seguimos a lógica do vídeo estamos a apenas um atentado de que isto se converta em um movimento.

5. Todo o poder aos memes

"Os memes fizeram mais pelo movimento etnonacionalista que qualquer manifesto"

Se algo tinha claro Tarrant no momento do ataque era o poder dos memes. O manifesto que escreveu é um meme, que está cheio de memes, e até o vídeo do ataque é um meme, com mais memes dentro ¿disse muitas vezes meme?

Tarrant na corte fazendo o gesto do smug pepe.

O que Tarrant diz é que os memes criados em 4chan têm mais alcance do que qualquer outro fenômeno cultural na hora de replicar, como um vírus, as ideias da extrema direita. Essa ideia é um meme em si mesmo conhecido como "meme magic". Já falei um pouco desse tema nos meus dois artigos anteriores. Mas além disso, Tarrant imbuiu o ataque de conteúdo "viral". Primeiro, o ataque saiu pelo Facebook live, o que significou que todo o ataque em si seria replicado pela simples morbidez que move as pessoas. Ele não estava errado. Ontem Facebook removeu mais de 1,5 milhão de cópias do vídeo do ataque enviadas para seu site. Nice. Em segundo lugar, no vídeo disse "se inscrevam em PewDie Pie", o Youtuber mais famoso do momento. E em terceiro lugar, no manifesto deixou vários easter eggs como referências a anime, Spyro 3, Fortnite e o esquema Bitconnect.

Tarrant não estava errado e cada uma dessas peças contribuiu para que seu ataque se tornasse uma das notícias mais populares desses últimos dias. Mas não só isso, a polêmica em torno dos videogames e PewDiePie ajudou a alcançar um de seus objetivos: polarizar a opinião pública.

6. O ataque à "opinião pública"

"Escolhi armas de fogo pelo efeito que teria no discurso público, a cobertura extra da mídia que proporcionaria e o efeito que poderia ter na política dos Estados Unidos e, portanto, na situação política mundial. Por causa da Segunda Emenda, os Estados Unidos estão divididos em muitas facções, estaduais, sociais, culturais e, mais importante, raciais. Com pressão suficiente, a ala esquerda dentro dos Estados Unidos buscará abolir a Segunda Emenda, e a ala direita dentro dos Estados Unidos verá isso como um ataque à liberdade e à sua própria liberdade. Essa tentativa de abolir direitos pela esquerda resultará em uma polarização dramática do povo nos Estados Unidos e, finalmente, uma ruptura dos Estados Unidos em facções culturais e raciais"

Além de estar preparado para o ataque, Tarrant calculou os efeitos de suas ações na opinião pública. Inspirar medo, polarizar a sociedade e fragmentar. Cada um desses obstáculos precisa ser contornado. Se algo descobriram Tarrant e Brievik é como se aproveitar da assimetria ideológica entre o progressismo das elites e o terrorismo. Brievik foi condenado a 21 anos de prisão sob um regime que permite estender a sanção por tempo indeterminado. Enquanto isso, vive no conforto da prisão norueguesa e se comunica diariamente com outras pessoas por carta. Brievik e Tarrant vivos são um perigo constante.

Ontem, no Twitter, muitos progressistas comemoravam a velocidade com a qual o estado da Nova Zelândia revogou a venda de armas semi-automáticas aos cidadãos. No entanto, esse tipo de resposta era precisamente o que o atacante buscava provocar. Para quê? Para aumentar a paranoia persecutória na direita mais tradicional e aprofundar a polarização entre esquerda e direita em cada canto do planeta.

"é preferível a sobrevivência à morte para poder difundir meus ideais através da cobertura da mídia e para esgotar os recursos do estado com meu próprio encarceramento"

Vivos, tal como eles mesmos expressam, podem continuar causando dano. Neste caso, qualquer governo deveria analisar a possibilidade de utilizar a pena de morte.

7. "A radicalização é a resposta racional à degeneração"

"dar impulso ao pêndulo oscilante da história, desestabilizar e polarizar o ocidente com o objetivo de destruir a doença niilista, hedonista e individualista que tomou de assalto o pensamento ocidental"

O surgimento do que poderíamos chamar de braço armado da extrema direita adiciona um novo problema a nosso contexto político. Hoje em dia, a extrema direita coloca uma oposição acirrada ao establishment político. A proliferação de memes e usinas de pensamento ultra-direitista (ou simplesmente nazista) cria um contexto favorável para a radicalização de pessoas isoladas, furiosas e/ou decepcionadas com o sistema político atual. Claro que entre alguém que posta uma foto de Hitler e alguém que planeja dois anos como matar 50 pessoas há uma diferença abismal. Mas quanto mais se expande o primeiro grupo mais chances há de que apareçam mais sujeitos radicais. Já não estamos diante de uma força política composta exclusivamente de fãs de autores com critérios epistemológicos frágeis. Agora, há que lidar com a possibilidade de que graças a esse grupo marginal, edgy, ou como quisermos chamar, surja, de tempos em tempos, um cara que assassine 60 pessoas apenas por considerá-las seus inimigos.

Acredito que o pior erro que se pode cometer é olhar para outro lado. A única maneira de frear esse avanço é destruindo, ou enfraquecendo as condições que permitem que essas pessoas se formem, ajam e contaminem suas ideias. Temo que seja um problema que excede a capacidade de respostas do estado.

[Atualização: 04–08–19]

Durante a manhã de ontem, um jovem norte-americano de vinte e um anos, Patrick Crusius de Allen, assassinou com seu AK-47 vinte pessoas em um Wall-Mart de "El Paso" no estado do Texas. Em um manifesto de três páginas que enviou para o site 8chan deixou claro que a inspiração para este ataque não havia sido outro senão Brenton Tarrant. E utilizou a mesma teoria conspiratória sobre "o grande reemplaço" para justificar o ataque. Dessa forma, aquilo que parecia um excesso de alarmismo quando publiquei a primeira versão deste post, hoje não é nada mais nada menos que a confirmação da tendência.

[Atualização: 16–05–19]

Em 15 de maio de 2022 Payton Gendron perpetrou um ataque em um supermercado da localidade de Buffalo, Nova York. No ataque feriu treze pessoas das quais faleceram onze. O perpetrador transmitiu todo o ataque de seu canal do Twitch e deixou um manifesto de 180 páginas. Dentro do manifesto nomeia como inspiração Brenton Tarrant, de quem também copiou a personalização de seu rifle Bushmaster XM-15. O objetivo de seu ataque foi definido com clareza: deter o genocídio branco.

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