Desde la década de 1940 que o Parque Rivadavia recebe colecionadores de todo tipo, mas a crise e a necessidade de criar um novo lugar de pertencimento fizeram com que sua feira crescesse, congregando centenas de pessoas pelo colecionismo de jogos, brinquedos e antiguidades.

Golden Age
O Parque Rivadavia sempre teve um lar para essa gente, sendo primeiramente o imortal Ombú dos Colecionadores o ponto de encontro. Os arredores dessa árvore desde o começo estiveram ocupados pela numismática e filatelista. Depois veio a criação da feira de livros e revistas, e a partir dos anos 60 a incorporação da de hobbistas, aos domingos.
Este espaço para muitos sagrado é um ponto cultural importantíssimo para a Cidade de Buenos Aires, não só por sua feira organizada mas também pelas comunidades que foram vivendo e ocupando. Nos anos 80, multidões se juntavam para trocar vinis, ao ponto de que o Parque começou a ser um espaço para as proto tribos de punks, metaleiros e melômanos em geral. Circulavam álbuns usados, discos importados e os famosos bootlegs (toda uma cultura do trucho em si mesma), que ofereciam gravações piratas de shows ou raridades de estúdio.
"Desde o meio-dia daquele domingo / Onde se trocavam discos de vinil / Com rumo para o outro lado vamos você e eu." Iorio imortaliza esse momento em "A vos amigo", de Almafuerte, um canto à amizade e aos momentos compartilhados pela comunidade metalera que se juntava ali. A informação que se podia encontrar no Parque era tanta que mudava vidas, forjava amizades e também permitia ganhar uns trocados para sobreviver neste país em constante crise.
Durante os anos 90, com o 1 a 1 que uma parte da classe média podia desfrutar, a feira de livros e revistas chegou ao seu melhor nível de material. Não só se podiam encontrar clássicos mas também havia bancas especializadas em quadrinhos ou livros de história que importavam novidades.
Nessa época também chegou Magic: The Gathering ao Parque, tomando uma boa porção da feira que com o passar dos anos se contraeria a uma única loja que continua até hoje: Time Spiral. Enquanto isso, os domingos continuavam sendo dos colecionadores de brinquedos, antiguidades, numismática e filatelia. E bem ali perto desse espaço, o setor de discos. Mas, pós 2001, as coisas mudaram.

De vendedores de rua a DVDs
Com a crise apareceram os primeiros vendedores de rua "ilegais", que começavam a se juntar nos caminhos do parque. No princípio com antiguidades, mas à medida que a crise se aprofundava, as mantas se iam enchendo de coisas que a gente vendia para sobreviver. Alguns tinham empreendimentos, outros reventavam seus colecionáveis, mas também estava quem vendia o que tirou de sua casa ou do lixo.
Outra mudança importante foi que em 2003 o Parque foi fechado com grades, o que seria depois uma política habitual na Cidade de Buenos Aires. Mas os vendedores de rua continuaram e a feira se expandiu em alta velocidade powered by a crise, até ocupar todo o Parque. Quando não havia mais lugar, e somado às reclamações dos vizinhos dos apartamentos lindantes, a polícia e o governo da Cidade (dirigido por Mauricio Macri) se fizeram presentes para "limpar" o espaço público e só deixar as feiras "legais".
Outro evento importantíssimo que voltou a revitalizar o Parque foi a criação de El Quinto Escalón, os encontros competitivos de freestyle que funcionaram entre 2012 e 2017, e que gerenciavam YSY A e Muphasa. Mas como diriam em Conan: "Essa… é outra história".
O resto da primeira e a metade da segunda década dos 2000, o Parque manteve a feira clássica de livros e revistas, mas preenchida pela venda ilegal de DVDs de todo tipo. "JOGOS, FILMES, PROGRAMAS", era o grito de guerra dos vendedores. De todos os vendedores, porque o negócio dos DVDs se levou por diante grande parte das bancas de livros. Embora os domingos continuasse a feira de colecionáveis, foi cada vez menor e os vendedores de rua expulsos se mudaram em grande parte para o Parque Centenario.
Durante alguns anos, o Rivadavia foi perdendo a magia. Mas se acham que essa foi a época escura, estão muito enganados.

A verdadeira era escura
Entre 2017 e 2019, os DVDs começaram a desaparecer. E, com eles, parte da feira. Anos atrás, muitos vendedores de livros foram mudando sua mercadoria por pastas de jogos, filmes e programas, mas com a chegada dos serviços de streaming e as novas tecnologias, seu consumo caiu drasticamente, deixando muitas bancas vazias que já não tinham nem livros nem DVDs.
Somado a isso, o Parque sofreu duas grandes mudanças: uma reforma em 2017 que o manteve fechado durante quatro meses, e em 2019 a abertura da continuação da rua Beauchef ao lado da Escola Normal Superior Nº 04 - Estanislao Severo Zeballos. Devido a essa nova rua, se gerou um conflito entre a feira, os vizinhos e o governo da Cidade, já então encabeçado por Horacio Rodríguez Larreta. Muitos dos vendedores clássicos da feira e vizinhos não queriam a obra, pois abria uma rua ao lado de uma escola.
Depois de vários meses de discussões, durante a noite de 26 de julho de 2018, a feira sofreria um incêndio que se levaria 8 bancas, tornando irremediável a construção da nova rua. O governo de Larreta atribuiu o incêndio à má instalação elétrica das bancas, mas nunca pôde corroborá-lo.
Enquanto a obra se levava adiante, as bancas foram colocadas sobre a Avenida Rivadavia, sem luz durante vários meses. Na abertura da obra, a meados de 2019, as bancas voltaram ao seu lugar habitual mas com certos requerimentos do governo portenho. Se ofereceram mobiliários novos, mas os permisos passariam à Cidade e, para poder renová-los e manter o uso, a contraoferta foi que arrumem e pintem as bancas, junto a uma série de trâmites para poder trabalhar na feira.
No final, a rua que se abriu terminou sendo uma peatonal pelo reclamo dos vizinhos e alunos da Escola Normal Superior Nº 04. Mas quando esse conflito parecia ficar no passado, chegou a pandemia, e com ela o isolamento. Entre fevereiro e junho de 2020 a feira esteve fechada, e em sua abertura só se podia ir de segunda a sexta, um dia postos pares, e no outro ímpares. Até que em dezembro de 2020 a feira voltaria abrir normalmente nos fins de semana.

Reabertura, crise e renovação
Pouco a pouco, o Parque voltou a se recuperar e a se adaptar à nova época. Por um lado, a feira de livros e revistas voltava a ter material, a de hobbies dos domingos voltava a convocar gente e se somavam muitos vizinhos em busca de um dos poucos espaços verdes do bairro.
Entre aniversários ao ar livre, o retorno de atividades como aulas de ginástica para idosos, e a renovação das bancas, os domingos começaram a aparecer colecionadores que ocupam a velha fonte da entrada de Rosario para trocar figurinhas. Ritual que em 2022, com a Copa do Mundo, explodiria em popularidade, tornando impossível se mover pelo Parque aos domingos.
À medida que a febre de figurinhas foi baixando (que não foi de um dia para o outro, e sim de meses e meses), ocuparam esse espaço com mantas vendedores de colecionáveis em princípio de autinhos em escala, mas rapidamente todo tipo de colecionadores, em geral.
No princípio celebramos, porque se precisava deste espaço ao ar livre. Desde 2015 que as feiras de colecionáveis pertenciam a galpões e grupos de Facebook, onde para entrar há que pagar e para vender há que seguir suas regras. E exceto alguns pontos no Parque Centenario, não havia muitos espaços para gerar esses encontros. Por isso, à medida que a zona dos novos vendedores de rua ia crescendo, nos íamos alegrando com os tesouros que se voltavam a encontrar no Rivadavia.
Já desde 2023, a zona de hobbistas começou a ter essa outra feira de vendedores de rua que só funciona de 8 a 14 (cada vez um pouquinho mais tarde, na verdade), mas foi com os golpes duros da inflação de meados de 2023 em diante quando os vendedores de rua começaram a ganhar território e uma vez mais, powered by a crise que temos em cima qual maldição vampírica, cresceram até ocupar, em setembro de 2024, mais de um quarto do Parque. Soa como 2001 novamente.
Com os golpes econômicos do último ano e mais, somados à fatalidade que foi a pandemia para muitos comerciantes, as mantas se encheram de material à venda. É nesses momentos de crise forte onde quem tem dinheiro compra e quem tem necessidade vende. Essa nova feira também conta com grupos de Facebook onde se organizam vendas e entregas, mas para vender na rua só há que chegar cedo o domingo e encontrar um lugar.
Durante um tempo o Parque viveu essa dicotomia de realidades: por um lado a celebração de ter um novo espaço para ser hobbista, e por outro a crise que nos mobiliza a sair em busca do trocado. Mais além da sombra da crise sobre todos nós, o Parque voltava a ser ponto de encontro e passeio. Ficou recomendável visitar a feira de hobbistas aos domingos, porque era uma bomba a quantidade de gente e de coisas lindas que se viam, coisinhas de 500 pesos até Castelos de Grayskull por centenas de dólares.
Mas vivemos em tempos acelerados, e o governo da Cidade comandado por Jorge Macri tem o olho posto em como a cidade se vê, limpando pessoas sem teto da rua, e vendedores de rua. Primeiro se pôs em ação um grande operativo para tirá-los do Parque Centenario. Para quando essa nota foi publicada originalmente, não sabíamos quando, mas sim sabíamos que iam chegar a Polícia e a Cidade para esvaziar também o Rivadavia.

O despejo de 2025 e a atualidade
Retomo esta nota em meados de 2025 porque, como foi antecipado na estreia de 421, ia acontecer: meses depois de ter escrito e publicado este artigo (especificamente a partir de 2 de fevereiro) o GCBA, articulando sua polícia e através de uma denúncia de vizinhos que reuniram assinaturas, começou uma campanha de despejo e criminalização dos colecionadores que participavam da feira de manteros do Parque.
Vocês podem ler a cronologia de todo este episódio nesta outra nota, onde repassamos as primeiras semanas desta perseguição. Não apenas foram fechadas várias entradas do Parque como também foi preenchido de policiais vigiando e, durante as primeiras semanas, exigindo revisar pertences para deixar as pessoas entrarem, para que também não pudessem fazer entregas.
Hoje sobrevive a feira clássica de colecionáveis aos domingos, pequena e com muitas complicações para conseguir um posto. Já não há tanto controle policial mas continua a situação geral de não poder trabalhar para os colecionadores que davam atividade comercial à zona.