A história da demoscene: hackers e arte digital
Da pirataria à arte digital: a origem da demoscene e da Flashparty, o festival argentino de hackers e criadores digitais.
Se pensamos em artes eletrônicas e digitais, o mais provável é que as associemos a práticas mais típicas do fim dos anos noventa ou do começo dos 2000. A verdade é que, muito por baixo de tudo isso, existe uma cena que nasceu em meados dos anos oitenta, no calor dos computadores domésticos de 8 e 16 bits e dos primeiros crackers de software.
Em 23 de julho de 1985, no Lincoln Center de Nova York, era apresentado o Commodore Amiga, um computador doméstico de 16 bits que saiu da cabeça de Jay Miner, ex-funcionário da Atari. A história em si merece um capítulo à parte, pela imensidão do projeto e pela relevância da máquina na história da informática doméstica, lamentavelmente ofuscada por ter sido enterrada pelo PC. Mas o que nos interessa aqui acontece justamente naquela apresentação. O Amiga foi o primeiro computador pessoal verdadeiramente multimídia, e foi assim que ele foi exibido naquele dia. Durante aquela jornada tão particular houve dois convidados estrelados da cultura pop do momento: Andy Warhol e Debbie Harry.
Jay Miner os convida ao palco e explica que vão tirar uma foto digital ao vivo da cantora, capturá-la com o computador, e Warhol vai usar essa captura como base para editá-la no software de desenho emblemático do Amiga, o Deluxe Paint. Entre piadas constrangedoras e risadas que parecem enlatadas, o artista plástico joga umas baldadas de tinta no retrato, criando assim sua primeira obra digital. Warhol se tornaria embaixador do computador e criaria várias obras digitais que ficaram perdidas em alguns disquetes até serem recuperadas há dois anos.
Existe uma cena que nasceu em meados dos anos oitenta, no calor dos computadores domésticos de 8 e 16 bits e dos primeiros crackers de software.
O lançamento do Commodore Amiga, um computador de 16 bits, com som estéreo, uma paleta de 4096 cores com a possibilidade de exibir 64 na tela (ou todas, com alguns truques e hacks de programação), um processador de 7 MHz, resolução de até 640x256 pixels e, além disso, drive de disquete de 3 ½ embutido, foi um ponto de virada na história da arte e da informática. Sua chegada despertou com força uma comunidade de hackers, crackers e futuros artistas do código que criaram um movimento que existe até hoje: a demoscene.

No princípio eram os piratas
O princípio da reprodutibilidade técnica enunciado por Benjamin em 1936 foi gestado numa época em que a ideia de um computador mal existia na cabeça de alguns iluminados. Menos ainda existia o conceito de arte digital. Mas é verdade que podemos traçar algum tipo de paralelo entre aquele texto icônico e o surgimento da arte digital popular, que aparece justamente pelas mãos dos crackers e hackers. Quando o software começou a ser distribuído comercialmente, primeiro em fitas cassete e depois em disquetes de 5 ¼, no ecossistema dos chamados homecomputers, os primeiros computadores de 8 bits, tanto os publishers quanto os estúdios ou os primeiros solo-devs queriam que sua obra não pudesse ser copiada de jeito nenhum. A base do negócio estava em vender cópias que, embora não fossem únicas, não podiam ser copiadas sem autorização.

Com o lançamento do ZX Spectrum em 1982 e do Commodore 64 em 1983, a Europa se encheu de computadores domésticos e, portanto, de software, principalmente videogames que circulavam tanto em fitas cassete quanto em disquetes de 5 ¼. Os sistemas de proteção que tentavam evitar cópias ilegais eram rapidamente quebrados pela incipiente cena de crackers, que reempacotavam o jogo e o distribuíam nas nascentes redes de dados, como as BBS, ou em serviços como a CompuServe e similares, que ofereciam boards em modo texto puro onde era possível baixar arquivos, tudo por meio de um modem e da linha telefônica. Mas o hábil pirata que realizava essa façanha não se contentava em quebrar um sistema de proteção: queria deixar uma marca, uma assinatura, um grafite que dissesse eu sou o fodão e o resto é tudo otário. Nesse reempacotar e distribuir, seja por essas redes de dados ou vendendo de novo cópias físicas piratas, essas mensagens eram incluídas como assinatura, para que se soubesse quem tinha sido o hábil pirata que quebrou a proteção.
O registro mais antigo disso aconteceu no Apple II, com o jogo Crush, Crumble and Chomp (1981), cujo crack saiu no mesmo ano sob o original nome de The Pirate, um cracker que pirateou muitos jogos da época. Essa perícia técnica foi evoluindo, e dos simples textos passaríamos a imagens e grupos, como o Berlin Cracking Service, a quem devemos o crack do Paint Magic do C64, lançado em 1984, que seria a primeira imagem “documentada” incluída numa pirataria de software. Na imagem em questão se vê uma espécie de “urso”, mais parecido com o Godzilla, um animal icônico da Alemanha. O passo final vem com a incorporação de scrollers de texto com mensagens mais voltadas aos outros grupos, somando também música, tudo isso dentro da “intro” do software crackeado, dando origem ao que ficou conhecido como cracktros.

A partir daqui a história fica um pouco mais complexa, porque a ideia de incorporar textos, música e imagens acaba extrapolando o crack e se transforma em outra coisa. A demo, ou demonstração técnica, aparece como uma obra que roda no computador e que mostra gráficos, animações ou sons processados em tempo real e programados na linguagem da máquina. Justamente o lançamento do Commodore Amiga em 1985 acaba catapultando essa cena incipiente para uma subcultura que lança as bases da arte digital e da arte de código, junto com as primeiras conexões às redes de dados e os floppy disks.
Copyparties, demos e demoparties
O disquete foi para o computador o que a imprensa foi para o papel, ou seja, uma ferramenta de distribuição e cópia de informação a granel. Embora a tecnologia floppy existisse desde 1971 no formato de 8 polegadas, seria com o disquete de 3 ½ que ela chegaria ao seu momento de glória. O Commodore Amiga 1000, lançado em 1985, vinha com um drive de disquete de 3 ½ embutido, que serviu para criar um mercado de software enorme, principalmente de videogames, em que grandes sagas e títulos saíam primeiro para essa plataforma.
Por causa da movimentação dos crackers e da facilidade de copiar software graças a aplicativos como o Fastcopy, surgiram encontros que ficaram conhecidos como Copyparties em vários países do centro e do norte da Europa. Ali as pessoas se reuniam para copiar e compartilhar jogos e software e também para mostrar cracktros. Não há registros precisos da primeira produção que saiu do mundo da cópia de jogos e seus cracks para virar uma produção independente, uma demo, mas ela nasceu no calor desses encontros, somados à popularização do Amiga.
Um dos marcos indiscutíveis aconteceu durante uma dessas copyparties holandesas, o Venloo Meeting de 1987, onde a dupla dinamarquesa formada por Sodan e Magician 42 apresentou a primeira Mega Demo, TechTech, para Amiga, que durante 11 minutos nos mostra imagens, scrollers de texto, efeitos visuais e, claro, música.
No fim dos anos oitenta, muitas copyparties acabaram se transformando ou se fundindo no que hoje conhecemos como demoparties, verdadeiros festivais e encontros de hackers, artistas, entusiastas e curiosos da computação, da arte e da música. Muito antes do conceito de “arte multimídia” e completamente longe dos academicismos que gestariam e analisariam essas práticas, sobretudo no fim dos anos noventa, a demoscene foi fundada pelos primeiros piratas, que depois se tornaram verdadeiros pioneiros do que hoje chamaríamos de arte digital. Nas demoparties, grupos e pessoas se reuniam durante um fim de semana para mostrar obras, criá-las ao vivo e competir entre si, abertamente, sem júri, só com o voto do público, para ver quem fazia a obra mais espetacular em diversas categorias, fossem intros, gráficos, música ou demos.
A demoscene foi fundada pelos primeiros piratas, que depois se tornaram verdadeiros pioneiros do que hoje chamaríamos de arte digital.
Essa cena, nascida nos computadores de 8 e 16 bits, não morreu com o passar dos anos: cresceu e se expandiu para além dessas máquinas. Já não se tratava de codar num Commodore 64 ou num Amiga, mas de usar alguma IDE moderna, desde que a obra pudesse rodar em hardware real, ou seja, que continuasse tendo as limitações daquele hardware. Era justamente aí que residiam o encanto e a perícia de quem criava essas obras: espremer cada byte possível, aproveitar as limitações de cores, de RAM e de processamento, aprender os truques próprios de cada processador etc. Com o tempo, as categorias de demos foram se ampliando, e hoje muitas parties aceitam obras em pixel art, demos de PC que ocupem no máximo 1 KB ou até 256 bytes, muito menos do que um e-mail sem texto.
Flashparty, a rainha das demoparties sudacas
Não é muito difícil ser a campeã das parties na América Latina, já que a única realizada desde 1998, a Flashparty, acontece na Argentina. O núcleo dessa cena está, como já dissemos, na Europa, principalmente na Alemanha, na Holanda e nos países nórdicos, embora também esteja espalhado por todo o Leste Europeu e pela Rússia; inclusive, a União Europeia classificou as demoparties como Patrimônio Cultural do continente. Mas, se falamos da América do Sul, por mais que exista uma enorme comunidade em torno do hacking e da arte digital, a Flashparty é a única referência direta dentro dessa cena maravilhosa.

No nosso país, a popularização dos homecomputers aconteceu em meados dos anos oitenta, com marcas como a Drean lançando o Commodore Drean 64, a “única” licença oficial da marca. Mas, junto com ele, houve máquinas como o Talent MSX ou o CZ Spectrum, entre outras. Assim como na Europa, aqui houve uma pequena cena de crackers que gerou um circuito azeitado entre distribuidores de software, lojas de informática e piratas espalhados por toda Buenos Aires e pela Grande Buenos Aires, além de núcleos em Córdoba e Rosario.
Qualquer um que tenha tido um microcomputador naqueles anos certamente topou com jogos e software teoricamente crackeados no país, e digo assim porque ainda falta uma pesquisa aprofundada sobre a cena. O que existia, sim, era uma rivalidade brutal entre esses grupos ou crackers solitários, tal como na Europa. Há muitos registros, e já me chegou muito burburinho de diversas fontes sobre se fulano tinha ou não crackeado tal software ou se simplesmente tinha pegado um crack original europeu e colocado seu nome por cima... O que não tira a natureza pirata da coisa; pelo contrário, a potencializa.

Em meados dos anos noventa, enquanto no mundo chegavam as primeiras conexões de internet e os sistemas de BBS iam se apagando, na Argentina esses espaços ainda gozavam de certa popularidade e eram o centro de distribuição digital de cracks, gráficos ASCII ou ANSI e, claro, demos. Dentro desses nichos foram surgindo diferentes personalidades e grupos, sendo o PVM, Pungas de Villa Martelli, a crew por excelência da demoscene local. Tanto que, em 1998, já havia uma cena consolidada o bastante para organizar a primeira edição da Flashparty num galpão de Villa Crespo, em Buenos Aires. Segundo lembram os organizadores, essa primeira competição contou com acesso à internet, discada, claro, mas surrupiada de algum vizinho de um prédio do centro. Nessas cenas, a conexão com a internet é crucial, porque a participação não se limita à presença física. No ano seguinte, foram para o CCGSM no formato de um fim de semana inteiro, em que os participantes levavam seus computadores, montando verdadeiras lan parties à moda antiga.
Até hoje a party continua sendo realizada ano após ano, e no próximo 31 de outubro acontecerá uma nova edição em Buenos Aires, com local ainda a definir. Há uma enorme quantidade de categorias para participar, já que, para ampliar a convocatória, muitas demoparties abrem as portas para pixel art, fotografia, música em mp3, gráficos de qualquer tipo ou videogames. No caso local, as categorias mais populares são as de text-art, ou seja, obras feitas com os caracteres de texto de diferentes computadores, seja o ASCII ou ANSI dos PCs, o PETSCII do Commodore 64 ou o teletexto. Pessoalmente, sempre aguardo a categoria old-school demo e, em especial, espero a demo que o grupo PVM apresenta, sempre com mensagens altamente politizadas e referências locais por todo lado, sendo talvez “Libertongo”, para C64, apresentada no ano passado, minha demo favorita do grupo.
A cena pode parecer pequena em comparação com o resto do universinho da arte digital, mas, ao contrário dele, que costuma ser mais estabelecido e reconhecido, a demoscene se apresenta como um campo de batalha artístico. Ali, com pouco se faz muito, a gana de criar e de conseguir é o maior motivador, e a necessidade de mostrar tudo em eventos presenciais é o grande motor da cena.
Então você já sabe, larva do ciberespaço: se você curte ver como cada byte de um computador dos anos oitenta é espremido até a última gota, ou como um programa de 1KB faz uns shaders 3D absurdos, ou se simplesmente quer ouvir uns bons mp3 ou ver uma linda galeria de arte em texto, reserve o dia 31 de outubro, e, se você não estiver em Buenos Aires, não tem problema, porque a Flashparty é transmitida para o mundo todo.
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