Epstein & 4chan

Como é de conhecimento público, os documentos que liberou o Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o caso Epstein mostram que tanto ele quanto sua parceira estiveram muito relacionados com 4chan e Reddit. Dois dos espaços mais influentes das discussões políticas online e que, em grande medida, deram forma à "discussão pública" na internet sobre a política em geral.

No caso de Jeffrey Epstein, o que se pôde saber através da busca em seus emails é que tinha uma estreita relação com Christopher Poole, alias "Moot", criador de 4chan e que depois de entrar em contato com ele, Moot criou o, agora infame, quadro /pol/. O lugar de discussão política sem moderação por antonomásia da internet.

O tweet sugere que a criação de /pol/ é influência direta de Epstein (não seria estranho) e que portanto tudo o que sucedeu em /pol/ seria uma consequência direta de uma operação de agências de inteligência dos Estados Unidos e Israel em virtude das relações de Epstein com a comunidade de inteligência e da suspeita de que trabalhava para a CIA e o Mossad.

Embora esses vínculos sejam difíceis de provar com evidência fidedigna pela natureza mesma do trabalho de inteligência, não é preciso ser muito perspicaz para entender que um personagem como Epstein e com as atividades que levava adiante (tráfico de pessoas e exploração sexual de menores) e as figuras que o rodeavam, desde Bill Gates a Donald Trump passando por Noam Chomsky e os criadores do Google, não possa estar fora da área operativa das agências de inteligência mais importantes do planeta.

Por outro lado, Ghislaine Maxwell, que foi sua parceira e sócia em suas atividades criminosas, também foi parte importante da discussão online mas desta vez do Reddit, muito mais associado à ala que nos Estados Unidos se conhece como liberal (o que aqui chamaríamos de progressistas).

A partir de ambas as "revelações" (que mais bem são indícios ou suspeitas) o debate na internet girou em torno de como todos os movimentos de direita extrema, neonazistas e reacionários surgidos da ideologia combinada de /pol/ era uma forma de astroturfing por parte do Mossad e/ou da CIA. Independente de se fosse verdadeiro ou não, o leverage que trouxe à discussão online é claríssimo e ninguém pode alegar aqui falta de rigor, fact-checking ou discussão honesta, quando essas características da discussão online foram esmagadas pelo trem hipermeméti­co há pelo menos dez anos.

Casualmente, os menos surpreendidos foram aqueles oldfags que desde tempos imemoriais habitavam /pol/ com plena consciência de que se tratava, de uma forma ou outra, de um honeypot. Embora na época o principal apontado fosse o FBI.

4chan e eu

A relação entre cultura online, memes como uma forma de expressão nativa, correlação entre radicalização e cultura online, e radicalização meméti­ca, é um tópico que vem sendo explorado há um tempo. De fato, e por isso estou escrevendo este artigo, é o primeiro artigo da minha carreira que funcionou muito bem e que me levou, de uma forma ou outra, a terminar publicando um livro a respeito.

Apesar de tê-lo publicado originalmente no Medium e depois movido para Substack, agora descansa cheio de paz em 421. O pequeno artigo ao qual devo tudo. Claro que o artigo em si não era inovador, de fato foi publicado no início de 2019 quando o já clássico livro de Angela Nagel "Kill All Normies" tinha uns dois anos de existência. O truque daquele artigo foi traduzir essa novidade ao castelhano e apontar o perigo potencial de uma cópia desse modus operandi em terras gauchas. Algo que, finalmente, sucedeu.

Mas a relação entre meméti­ca e política já vinha sendo relevada desde anos antes. O livro mais importante a respeito o devemos a Limor Shifman, da universidade de Jerusalém (lol), que publicou seu seminal "Memes in Digital Culture" no ano 2013. Isto é tempo antes de GamerGate e estava mais focado no fenômeno Obama e OccupyWallStreet. A tarefa titânica de Limor Shifman foi a de traduzir o caído em desgraça conceito de meme tal como tinha evoluído até princípios da década de 2000 à nascente cultura digital. Quem estiver interessado na história da evolução desse conceito no campo acadêmico recomendo seriamente a leitura de "The Meme Machine" de Susan Blackmore.

A partir do meu artigo sobre 4chan me tornei uma referência no tema mas mais que nada porque não havia nenhum "jornalista" ou similar tratando o assunto. E se bem seguramente já existiam trabalhos acadêmicos a respeito ainda naquela época o v��nculo entre academia e mídia seguiam sendo estranho. Aos especialistas lhes custa mais chegar aos meios e os meios raramente buscam "especialistas". Nessa espécie de híbrido entre gordo leitor e saber mais ou menos escrever (e estar validado pelo sistema midiático tendo escrito em um jornal), me tornei parte do cardápio de consulta. Assim, expandi o artigo original na revista Nueva Sociedad agregando um pouco mais de aparato conceitual, e depois no mesmo meio terminei escrevendo sobre QAnon e memes.

No final de 2019 saiu o melhor livro sobre o tema e o que para mim parece a investigação mais completa sobre 4chan e adjacências que se trata de "It Came from Something Awful" onde conta toda a história de origem de 4chan, seu criador, e lança uma hipótese muito interessante de como toda essa cultura é a culminação do movimento contracultural niilista norte-americano clássico.

Em paralelo, continuou a radicalização, os manifestos e tiroteios de extrema direita. Sendo o de Brenton Tarrant o mais significativo e que copiava quase ponto por ponto o de Anders Breivik em Utoia. Também escrevi a respeito e encontrei um pequeno buraco não explorado que era a relação entre memes e violência política explícita. Graças ao nexo com Pablo Stefanoni, editor de Nueva Sociedad, tentei convencer naquele ano de que havia um livro a ser escrito à editora Siglo XXI mas não houve caso.

"¿La democracia en peligro?" Juan Ruocco (2019)
"¿A democracia em perigo?" (2023)

Quando parecia que o tema estava extinto, apareceu Sabag Montiel com sua tatuagem do sol negro, sua participação em fóruns marginais, suas inclinações hacia sabedoria hiperbórea, posse de material de abuso infantil, e sua tentativa de assassinato a CFK. Aí, me ligou Paidós e me pediu um livro que a essa altura se caía de maduro. Livro que se tudo correr bem, essa semana ou a próxima deveria estar de novo nas livrarias (joguei um dado e saiu um 20 em timing). O livro, em síntese, é o percurso de vários anos escrevendo sobre o mesmo, acompanhar um tema até que se torne relevante para o mercado editorial, traduzir uma discussão anglo para o castelhano e tentar fazer um pequeno e circunscrito aporte sobre o tema.

¿/pol é uma psyop?

A pergunta que todo mundo está se fazendo agora sobre a possibilidade de que /pol seja parte de um esquema "maior" que responda a necessidades de guerra psicológica por parte dos Estados Unidos, Israel ou seus aliados, é uma pergunta que está no ar há bastante tempo. De fato, que seus próprios usuários desconfiassem de que de alguma forma 4chan estava colaborando com o governo se baseava na ideia simples de "por que essa merda continua online" se já todo mundo sabe o que caralho acontece aqui dentro.

No ano passado quando 4chan foi hackeado veio à tona que metade do tráfego do site vinha de Israel. Conheço de perto a história de uma pessoa cuja irmã era assídua de /pol e terminou recrutada pelas IDF. Mas além da "evidência" anedótica a relação entre memética, psyops, e instrumentalização do discurso público tem longa história. Há literatura militar sobre a "crescente indústria da memética no âmbito militar" desde 2006. A relação entre memes, marketing e psyops está largamente explorada. Só cabe revisar os relatórios da corporação Rand (um dos think tanks mais importantes do ramo militar dos EUA) sobre "controle narrativo" ou os do Institute for Study of War sobre a guerra Russo-Ucraniana e o papel da memética no "controle narrativo" ou no "campo operacional da guerra cognitiva".

O que nos leva, de novo, a pensar sobre a pergunta que abre essa seção. Os vínculos entre Epstein e Moot tornam mais evidentes a relação e o interesse entre /pol e os círculos de poder. No entanto, esse dado completa algo que sempre esteve aí em forma de prática, intuição ou investigação acadêmica: um grupo consolidado de usuários criando, compartilhando e remixando memes 24/7, anônimos, discutindo e lutando pela atenção de seus pares, podem se tornar um nó que alimente a internet toda com seus memes-ideias. No caso de /pol a ausência de moderação (ou melhor dizendo praticamente nula) é o que permitiu que esse tipo de ideias florescessem. O caso do Reddit, por exemplo, também pode ser levado em conta como a ala mais "progre" (embora no caso da Argentina seja o contrário, quase completamente libertária) é produto de maiores níveis de moderação.

Algo similar ao que aconteceu no ex-twitter agora X. Quando a moderação era forte não havia muito espaço para discursos mais radicalizados nem práticas do tipo chaneras (ameaças, doxxings, blá blá blá), enquanto que desde que Elon Musk se encarregou da plataforma e anulou quase qualquer tipo de moderação se viu um notável giro para a direita. Cabe mirar apenas o auge memético de devox_posting por exemplo.

Weaponized Retards

Lendo os atuais administradores do site, é certo que custa acreditar que eles mesmos façam parte de algum tipo de organização de inteligência ou tenham vínculos com agências. 4chan continua existindo em grande parte pelo apoio que sua comunidade lhe outorga. É óbvio que se o fossem tampouco confessariam. Mas, por outro lado, nem mesmo é necessário. Aí está o truque.

As relações de Epstein sempre foram "por cima". Se vinculou com Moot antes de que vendesse o site e se fosse para o Google (¿gestão de epstein?), teve além disso uma relação MUITO estreita com Steve Bannon, um dos atores-chaves em todo o jogo da ascensão da "nova" direita ao poder nos Estados Unidos. De fato a relação com Bannon é bastante interessante e até em vários pontos talvez mais reveladora que sua relação com o criador de 4chan. A ideia que mais me fecha por enquanto é a de que Epstein era uma espécie de "hipefixer" com carta branca das agências mais importantes do planeta.

Mas ao que vamos é que não é necessário que saibas que fazes parte da conspiração para estar dentro. Daí o termo de astroturfing que basicamente é explicar como uma comunidade pode acreditar que está fazendo algo de forma "orgânica" quando na realidade está sendo utilizada, instrumentalizada, ou weaponizada. E como essa prática é muito mais efetiva em gente que não tem ideia, em idiotas ou como os nomeamos na gíria da internet, retards. É muito mais conveniente que a gente que ficou a cargo de 4chan não saiba que está sendo weaponizada. A weaponização sempre esteve à vista para quem tivesse olhos para mirar.

A radicalização via memes ou propaganda não conhece de fronteiras. De fato os primeiros casos a ser estudados têm mais a ver com o extremismo islâmico, o recrutamento através da propaganda, a violência como arma memética no caso do ISIS (oi CIA). Podemos pensar também nos casos de Luigi Magione ou o assassinato Charlie Kirk como correlatos dentro dessa tendência. Sendo os atiradores dois filhos muito claros da cultura da Internet.

De qualquer forma, este é tão somente outro novo capítulo de uma saga que sempre pensei que ia ter uma vida curta mas que sempre se arranja para uma e outra vez me obrigar a escrever sobre ela.

"quando penses que teu trabalho é uma merda pensa em Juan Ruocco que tem que falar de memes, a democracia em perigo essa e fechar com Que é uma Psyop todos os dois de sua vida até que chegue a morte ou a aposentadoria ou whatever comes first em unidades básicas e feiras do livro em ocasião das jornadas críticas de semiótica na faculdade de Comunicação de Tero Cogido...".

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