Ghost in the Shell (1995)

Fazia muito tempo que não escrevia para "o Canon". Quem me acompanha desde o Substack (e antes do Random, e antes do Medium, e antes do vdpraxis, e antes da Velociraptors, e antes do projectovdp, e antes…) sabe que "o Canon" é uma série de artigos dedicados ao que acredito serem os pilares da ficção científica audiovisual. Talvez algum dia, quando tiver tempo suficiente, eu consiga expandir o canon para livros e videogames; embora se eu pensar melhor, é o que estamos fazendo de certa forma no 421.

Gentil lembrete para quem se perdeu na continuidade dos assuntos: há um ano, em setembro de 2024, junto com Juanma La Volpe e Luis Paz lançamos este meio escrito. Um projeto que estávamos incubando desde 2023, para o qual fizemos uma rodada de investimento que deu certo; e recentemente, depois de um ano de crescimento significativo, recebemos um apoio institucional enorme da Ergodic, um dos holdings mais inovadores do país e do planeta, com um amplo campo de ação que vai desde a "tecnologia profunda" à vida real. Realmente estou muito feliz que isso tenha acontecido e que não só 421 tenha sido uma ideia incrível e um projeto com muita dedicação, mas que agora realmente estamos jogando o jogo de nos tornarmos um meio relevante para todo o continente.

Sei que no título prometi falar sobre Ghost in the Shell e ainda não comecei, mas me permitem este pequeno desvio. Gosto da ideia de tirar uma coluna dominical por mês, para nos mantermos atualizados, um pouco mais próximos, e sentir que esse pequeno espaço de contato com vocês, que sempre foram meus blogs, continua existindo de alguma forma, além de que tudo está escalando para uma dimensão que eu, pelo menos, nunca acreditei ser possível.

Ghost in the Shell entra no Canon

Ghost in the Shell é um filme de 1995 dirigido por Mamoru Oshiii e baseado no mangá homônimo escrito por Masamune Shirow. É um daqueles filmes totalmente formativos que te quebram a cabeça. Como o tiro em JFK: você fica chocado, pulando no porta-malas do carro procurando pelos pedaços, como se fosse possível recompor o que havia antes. Ainda me custa acreditar que tenha 30 anos.

É sem dúvida uma das séries/filmes do tríade da morte, junto com Akira e Evangelion. As três obras são amostras perfeitas da melhor tradição do Japão, que consegue uma mistura muito inusual de animação, ficção científica e drama existencial. Na mesma época, em nosso país a animação estava associada ao "infantil".

Para os filhos de pais nascidos nos anos '50 ou '60, a animação japonesa estava associada ao Astroboy, Mazinger, Meteoro e Heidi. Só nos anos '80 alguns jovens adolescentes tinham entendido que o gênero anime tinha outro nível de profundidade, com a chegada de Robotech. A ficção científica audiovisual não-animada tinha sua própria tradição: desde o mito fundacional de Metropolis até as joias modernas como Blade Runner, 2001: Uma Odisseia no Espaço e Solaris. Todas adaptações de mestres da ficção científica como Phillip K. Dick, Arthur C. Clarke ou Stanislaw Lem e traduzidas para a linguagem cinematográfica por titãs como Ridley Scott, Andrei Tarkovsky e Stanley Kubrick. Nada mais, nada menos.

A contribuição da "Tríade da Morte" foi aproximar algo desse cinema de alto voo a um público mais jovem e, ao mesmo tempo, poder mostrar através da animação coisas que ainda eram bastante complexas de conseguir na tela com métodos tradicionais. Lembremos que já estávamos na época de transição dos efeitos práticos para o CGI. Os cenários de Akira e suas perseguições, a tecnologia de Ghost in the Shell ou as batalhas de gigantes em Evangelion foram uma amostra suficiente de o que a animação poderia fazer para estimular a imaginação do futuro.

Escena de pelea en el agua Ghost In The Shell
Icônico chute da Majora Kusanagi

Espíritos hackeados

Ghost in the Shell basicamente nos conta um caso policial enredado em uma trama política internacional com dois atores principais: a Majora Kotomo Kusanagi, uma cyborg de grau militar ultrassecreto que trabalha para o "setor 9" e que está encarregada de caçar o segundo protagonista; o pirata informático mais famoso do planeta conhecido como O Tiriteiro, ou em inglês o Puppet Master. O caminho desses protagonistas irá se aproximando de forma assintótica até que no final ambos os caminhos serão apenas um. Avancemos.

O Puppet Master tem a habilidade não só de "hackear" computadores mas também de se meter no "espírito-alma" humano. É bastante significativo que a palavra que os personagens usam para se referir a isso no japonês original seja ゴースト (gōsuto), a versão oriental de "ghost", que poderíamos traduzir como "espírito" em português. Em inglês ao Espírito Santo se diz Holy Ghost.

Esses hackeos aos espíritos humanos geram efeitos significativos. Em primeiro lugar, substituem memórias por novos recuerdos desenhados de acordo com as necessidades do Puppet Master, apagando e tornando completamente inacessíveis os anteriores (e originais). Este efeito pode afetar como o hackeado vê o mundo, o que fica evidente quando Kusanagi e sua equipe apanham um gari com o espírito hackeado que está convencido de ver sua família em uma foto, e os protagonistas veem que é apenas ele passeando com seu cachorro.

Essas sequências começam a gerar mais de uma dúvida na Majora Kusanagi, cujo corpo foi completamente substituído por elementos biomecânicos. S�� lhe restou o cérebro original. Mas se é possível que alguém reescreva as memórias e o espírito de outra pessoa, que garantia ela tem de que suas memórias são genuínas e que a percepção de si mesma como humana é real?

A incerteza só irá aumentar à medida que a trama de enganos internos entre as diferentes seções do governo cresça. O filme ficará ainda mais denso quando o Puppet Master, através de um androide completamente novo da companhia ultra avançada Megatech, seja detido e colocado sob interrogatório. Meio quebrado e pendurado como se fosse uma meia carcaça, o Puppet Master se apresenta ante seus captores como uma inteligência nascida como produto do mar da informação que se torna autoconsciente, pedindo asilo político no Japão.

Mas os recém-chegados da seção 6 desmentem esta versão e afirmam que é uma inteligência artificial programada nos Estados Unidos, utilizada pela seção 6, que tomou consciência própria e quer fugir. Logo antes de as coisas ficarem complicadas, o Puppet Master se comunica com a Majora Kusanagi, a quem diz que está bem consciente de sua existência e que tem um plano.

Perto do final do filme, a Majora Kusanagi arrisca sua vida para salvar o que resta do Puppet Master, enquanto a seção 6 os procura para aniquilá-los. O Puppet Master oferece a Kusanagi se fundir para dar à luz um novo tipo de inteligência. Ante a pergunta de por que este caminho e não o da cópia, o Puppet Master responde que a evolução humana é a prova de que a informação, se muda e evolui, pode perdurar no tempo. Que a simples cópia não serve porque facilmente se pode encontrar uma forma de neutralizar isso e, com isso, todas as cópias.

No epílogo do filme vemos que Tank conseguiu um novo corpo (com idade de menina) ao qual transferiu as consciências agora unificadas de Kusanagi e do Puppet Master. Entre o aparecimento em sociedade do Tiriteiro e sua união com a Majora podemos identificar uma série de tópicos filosóficos muito interessantes, que constituem o núcleo temático de O Fantasma na Terminal.

Um desvio filosófico a Descartes e Hobbes

Esse tipo de pensamento vem perseguindo o ser humano desde sua constituição como tal, e dessas discussões podemos encontrar muitos traços na filosofia. Mas houve um período em que esse tipo de raciocínio em torno do corpo, da mente e da suspeita se tornou o pensamento filosófico per se. Estamos falando nada menos que de René Descartes e suas Meditações Metafísicas, um livro que quase unanimemente é considerado o início formal da filosofia moderna (se aceitarmos a divisão entre clássica, medieval, moderna e contemporânea). Como costumamos fazer sempre no Canon, a ficção científica é uma desculpa para falar de filosofia e/ou teologia.

Nos meter a resumir Descartes seria um trabalho muito longo, mas o que realmente o preocupava era aplicar um método, uma nova ciência, que lhe permitisse chegar a um tipo de ideia que fosse impossível de duvidar, para sobre ela reconstruir o edifício epistemológico das ciências. Daí que o livro anterior às Meditações, e uma espécie de versão preliminar do mesmo, seja O discurso do método.

Nas Meditações, então, Descartes aplica o método e derruba todos os pressupostos sobre o que vemos, acreditamos ou raciocinamos, aplicando diversos graus de argumentos céticos. Seu objetivo: encontrar uma ideia tão "clara e distinta" da qual não pudesse duvidar. Pela metade do livro, René se dá conta de que duvida de tudo, mas não pode duvidar de que duvida. Então, há pensamento. Cogito ergo sum, ou em português "penso logo existo".

A partir daí, a modernidade ia se concentrar em torno dessa divisão de substâncias. O que Descartes chama de "res cogitans" e "res extensa". Hoje, a herança desse pensamento dual pode ser interpretada sob a dicotomia mente-corpo. O tangível e o intangível. O software e o hardware. E todas as perguntas e/ou problemas que isso implica até hoje.

Mas ainda na mesma época da formulação do cogito, Descartes teve que enfrentar algumas críticas bem pertinentes. Entre elas a objeção de outro titã do pensamento europeu: Thomas Hobbes, autor do Leviatã e –nele– talvez a teoria política mais importante dos últimos 500 anos. O inglês questiona que da proposição "Eu penso" se possa concluir imediatamente "Eu existo" como verdade necessária. No glossário filosófico falamos de "necessário" quando algo não pode ser de outra maneira que não seja a que é. Para Hobbes, a proposição cartesiana é uma espécie de silogismo incompleto. O que realmente se afirma no cogito é algo assim: "Quem pensa, existe; eu penso, logo existo". Nesse sentido, não é uma intuição autoevidente mas uma dedução, e depende de aceitar a premissa universal "tudo o que pensa, existe".

Também suspeita que a certeza cartesiana pressupõe a existência desse "eu" que pensa, mas justamente isso é o que se tenta demonstrar. Se só se tem a experiência de pensamentos, afirmar um "eu" que os sustenta pode ser um salto injustificado. Em todo caso, o que se pode afirmar é que "há pensamento" ou que "algo está pensando". Na mesma linha, Pierre Gassendi, que também foi crítico da teoria cartesiana, afirma que da experiência imediata se segue: "algo pensa", e não necessariamente "eu penso". O passo do simples fenômeno de consciência ao "eu" pessoal é um salto metafísico.

Os problemas que derivam dessa dupla concepção de mente e matéria e, especificamente, de como é que os dois âmbitos se relacionam, são em grande parte um tópico recorrente da ficção científica em geral e de Ghost in the Shell em particular

Puppet Master Ghost in The Shell
Corpo ocupado pelo Mestre de Marionetes

Se eu não sou minhas memórias...

Todo esse desvio mais ou menos histórico o fizemos para destacar um dos principais problemas aos quais se refere Ghost in the Shell: a diferença entre mente e corpo. Esse problema se evidencia, em princípio, quando a major Kusanagi começa a duvidar de sua condição humana. Se todo seu corpo, menos seu cérebro, foi substituído por partes sintéticas, como pode estar segura de que sua mente é realmente seu Eu original e não algo também fabricado?

Essa suspeita permanente não se resolverá mas se irá aprofundando ao longo do filme e será uma das razões pelas quais Kusanagi escolha a fusão com o Mestre de Marionetes. Nesse sentido, parece ser que o filme tem uma forte inclinação "cartesiana", dado que a mente é algo que existe por si mesma, que pode ser hackeada e que se pode mover de um corpo para outro ¿É assim mesmo? Veremos.

Por outro lado, à medida que o caso avança e mais se deparam com "espíritos" que foram hackeados, também aparece outro problema que é a identidade e a memória. Esse é um tema que está tratado de forma original por Blade Runner, ainda que de maneira secundária, dado que o problema fundamental ali é entender o que torna humano um humano (daí que o teste Voight-Kampff exista para elucidar o que é humano do que não é). Porém, tanto os androides em Blade Runner e os hackeados em Ghost in the Shell compartilham a mesma incerteza: como sei que minhas memórias são reais? O que leva a outra pergunta ainda mais complicada: quem diabos sou?

Desde essas duas frentes se reforça essa postura crítica de Gassendi na qual, enquanto há pensamento, só posso afirmar consistentemente que "há algo que pensa". Se isso pode estar associado a um estado de reflexividade autoconsciente é um problema à parte, no qual a filosofia está imersa há vários séculos. Eis aqui a mestria de um filme dessas características. Não se trata só de um filme de ação, nem de imaginação do futuro, mas que tem a total capacidade de problematizar alguns dos assuntos humanos mais complexos, sem sequer amassarse a roupa. 

... quem diabos sou?

Arbol de la vida Ghost in The Shell Escena Final
Árvore da vida na sequência final

Se algo tem Ghost in the Shell é que não só a protagonista é uma personagem memorável mas que o antagonista está à mesma altura e talvez acima dela. O Puppet Master –adoro chamar de Mestre de Marionetes, desculpa– representa de várias formas uma versão atualizada de Skynet. Enquanto que em Terminator Skynet se torna consciente e automaticamente busca exterminar o ser humano, o Mestre de Marionetes ganha consciência e tenta sair do mar da informação para basicamente se tornar uma pessoa a mais. Tem sua própria agenda, claro está: evoluir. E para isso precisa se fundir com Kusanagi. Ao modo das duas super inteligências de Neuromancer.

Disso podemos deduzir ao menos três conclusões mais que interessantes.

Primeiro, o fato de que o Mestre de Marionetes se assuma como o "produto" do mar da informação, ou seja, um organismo que apareceu em uma espécie de caldo primordial informativo. Em outro sentido, poderíamos pensar então que segundo essa definição a inteligência ou a consciência é uma propriedade emergente dos sistemas informativos. Primeiro grande acerto temático.

Em segundo lugar podemos pensar, mais que tudo, no solilóquio final do Mestre de Marionetes com a Árvore da Vida ao fundo, e sua particular noção evolutiva. Diferentemente de plantejamentos apocalípticos como a inteligência de Skynet ou Ultron, essa particular IA não despreza o humano mas pelo contrário, reconhece no processo evolutivo da seleção natural um mecanismo mais aperfeiçoado que o da simples cópia. Se um arquivo ou informação genética simplesmente se repete como cópia, uma vez que apareça uma ameaça efetiva, não só destruirá uma unidade mas pode destruir a todas as cópias (a toda essa espécie). É por isso que o processo evolutivo que soma a mutação genética como característica é melhor em todo termo, porque permite que a variedade se converta em um sistema de defesa imunitário.

Por último, e baseado em ambas as coisas, o Mestre de Marionetes escolhe o caminho da evolução. Sair do mar da informação e se instanciar em um corpo (ponto para Husserl e Merleau Ponty), se fundir com outra inteligência similar à sua (a major Kusanagi) e evoluir em um novo estágio de forma de vida: a conjunção entre uma mente e/ou espírito humano e um espírito sintético. Assim, o Fantasma no Terminal –muito melhor tradução que o fantasma na concha– vira Fantasma no Corpo. Nesse último sentido, e sobre o que venimos explorando ao redor do Canon, esse antagonista é uma versão superadora do monstro de Frankenstein, uma reversão na qual não há necessariamente vingança mas sim um caminho desde o uso instrumental dos seres humanos a uma exploração mais completa acerca do significado da vida.

Longa vida ao Mestre de Marionetes.

Mais alguns parágrafos e fechamos

Em conclusão, Ghost in the Shell é tudo o que a ficção científica animada sempre aspirou a ser. A herdeira espiritual e material de Akira que mantém os mesmos tropos e os leva um passo além: cyberpunk, intriga governamental, tecnologia totalmente disruptiva, explorações sobre o espírito humano.

A nível filosófico-estético antecipa quase por completo a Matrix. Basta ver os créditos iniciais, as sequências de ação e a conexão à rede de informação através de cabos na nuca. Porém nesse filme animado, diferentemente do clássico das Wachowski, a suspeita acerca da veracidade da experiência humana não está posta no mundo exterior (a Matrix é uma simulação) mas no problema de como os humanos percebemos ao mundo e nos percebemos a nós mesmos (é uma suspeita sobre as próprias ferramentas da cognição humana). Nesse sentido, Ghost in the Shell está muito mais próxima a Blade Runner, onde "o humano" e se pode ser replicado artificialmente ocupam o centro da reflexão.

O filme de Mamoru Oshii é um compêndio de cenas de ação animadas indeléveis da memória coletiva. Um legado de uma técnica que atravessará o tempo, sem dúvidas. Basta ver a coleção de quadros e sequências de combate de Kusanagi para entender a maravilha visual à qual nos deparamos. A cena inicial de assassinato ao diplomata, a perseguição pela cidade inundada e a batalha final contra o tanque-aranha na cidade velha são cenas difíceis de apagar e que se tornaram ícones para muitos de nós.

Mas além do apartado estético, também indissolúvel porque é o tema que atravessa todo o filme, está o apartado filosófico. Uma síntese de alguns dos problemas mais complexos em relação à identidade humana, nossa relação com a filosofia, os problemas mente-corpo. Enfim, uma coleção de tópicos clássicos sintetizados em um filme de primeira. Não podemos pedir muito mais ao cinema.

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