Ler quadrinhos é bonito, mas também pode ser avassalador pela quantidade de títulos e autores. De fato, exceto por algumas exceções, a entrada no mundo do quadrinho é muito mais complexa que a de qualquer mangá. Dragon Ball começa em Dragon Ball #1, mas se quero ler Batman… tenho que ler tudo desde 1939?
Este guia nasceu na minha cabeça em dezembro de 2024, quando escolho presentear minha mãe, que cresceu com Adam West e nunca perdeu um filme do encapuzado, Batman: Ano Um para o Natal. O que acredito ser o melhor começo para um leitor adulto que nunca leu quadrinhos.

Quem é Batman?
Em 1939, especificamente em Detective Comics 27, nasce o personagem de Bruce Wayne/Batman. Criado por Bill Finger (roteirista, a quem sempre colocam em segundo porque durante muito tempo não foi creditado como co-criador, embora devesse figurar primeiro) e um polêmico dos quadrinhos, Bob Kane (artista, playboy e vigarista). Um personagem com nuances pulp que quebrava a estrutura do herói conhecido até o momento: não tem poderes, é impulsionado por uma tragédia e usa o medo em seus inimigos.
O paralelismo com El Zorro é gigantesco; tanto que acaba fazendo parte do lore do personagem porque é o filme que Bruce assiste com seus pais antes do assassinato mais importante da história do quadrinho. Na sua primeira aparição, Batman enfrenta o crime organizado de Gotham, uma luta que seria recorrente em toda a sua história.

Durante mais de 85 anos, com dezenas de roteiristas e desenhistas pelo caminho, o Morcego teria inúmeras representações, indo do mais absurdo e cartoon até o mais escuro e violento. É aqui que entramos na necessidade de um guia de leitura. Neste caso, minha seleção é voltada principalmente para quem nunca leu um quadrinho de Batman, e busca a experiência mais adulta do personagem, passando pelos momentos que considero indiscutíveis para forjar sua personalidade.
Batman: Ano Um (1987)

Frank Miller, um senhor quadrinista que deu vários gols em sua vida, escreve o roteiro desse "novo" origem de Batman. Já vínhamos de um personagem um pouco mais adulto que nos anos '60, graças ao trabalho de Neal Adams (o artista que terminou de definir o personagem visualmente) e Dennis O'Neil (roteirista), que introduziram muito lore importante para o personagem. Já em Ano Um, Miller e o artista David Mazzucchelli conseguiram pegar esse caminho percorrido nas décadas de '70 e '80 e reconstruir o personagem usando elementos do cinema sujo e noir desses anos.
A história é que Bruce Wayne volta para Gotham depois de uma turnê de treinamento exaustivo pelo mundo. Este jovem Bruce encontra uma cidade apestada de crime (com a família Falcone à frente) e decide colocar em prática seu plano de vingança contra tudo o que há de ruim em Gotham, tornando-se o protetor e vigilante da cidade. Em paralelo conhecemos o Tenente Gordon, um personagem fundamental nos quadrinhos, que tem que lidar com a corrupção interna da polícia e encontra em Batman um aliado para ordenar a cidade.

Também nos apresentam personagens em um estágio muito inicial, que depois serão da importante galeria de vilões e aliados, como Selina Kyle (Mulher-Gato) ou Harvey Dent (Duas-Caras). Também é mencionado alguém chamado The Joker, embora não apareça no quadrinho.
O desenho de Mazzuchelli está em um nível incrível, a ação e atmosfera que cria é fundamental para que o roteiro faça seu trabalho e nos leve por uma história mais próxima a um policial noir que a uma de super-heróis.
Batman: The Killing Joke (1988)

Ufa… por onde começar. Bela e duríssima história do Morcego, escrita por uma das melhores penas do quadrinho, o senhor Alan Moore, e ilustrada por Brian Bolland. Com um Batman que continua as características do de Miller e o de O'Neil, e um foco notável no segundo personagem mais importante da história deste bativerso, The Joker.

Nosso querido arlequim príncipe do crime, depois de vários encontros com Batman e fazendo crescer sua obsessão com ele, organiza um plano para demonstrar-lhe que a diferença entre o que ele se tornou e uma pessoa normal é apenas "um dia ruim". Para isso captura, humilha e machuca a família Gordon, buscando além disso quebrar e demonstrar seu ponto a Batman.
E algo que essa história deixa é que "um dia ruim" foi gatilho não apenas na origem do Joker, mas também na vida de Bruce. É uma das histórias mais cruas do encapuzado. Leitura indispensável.
Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth (1989)

Parece brincadeira que o que estou recomendando seja de 1987, '88 e '89, mas é importante remarcar como o trabalho de Frank Miller abriu a porta para essas histórias mais adultas. Somado a que é uma era prime do quadrinho, com convergência de autores em seu melhor momento e alguns rookies dando seus primeiros sucessos.
Em seu roteiro, Grant Morrison, o menino terrível do quadrinho durante os '80/'90, nos traz uma nova mudança de gênero dentro do universo Batman. Se de Ano Um dizemos que é um policial noir e se A Piada Mortal a colocamos como um thriller, então Arkham Asylum é um filme de terror.

Já com o rótulo de "romance gráfico" – conceito a discutir em outro artigo –, Arkham Asylum: uma casa sórdida em um mundo sórdido impacta desde a capa até a última página pela poderosa e retorcida arte de Dave McKean, conhecido por suas capas em Sandman. Neste relato escuríssimo, os internos do asilo mental, repleto de inimigos de Batman, se amotinam e tomam o pessoal em refém. Liderados pelo Joker, exigem que o encapuzado entre sozinho, ou começarão a matar um a um os reféns.

O Morcego entra em uma jornada de pesadelo onde enfrenta seus inimigos mais icônicos, em uma história que aprofunda a psique dos personagens, seu simbolismo e mitologia. É, sem dúvidas, um quadrinho para se divertir mal e se entregar à loucura.
Batman: The Long Halloween (1996 - 1997)

Dos títulos mais importantes para mim. Jeph Loeb (roteiro) e Tim Sale (arte) conseguem juntar todas as características que tornam o Morcego especial, e dão o contexto ideal para uma história que acaba tendo de tudo para o personagem. Batman é um detetive e um vigilante, e em O Longo Halloween o vemos novamente envolvido com suas duas especialidades em um policial noir.
Poderíamos dizer que está ambientado pouco depois de Ano Um, e é uma história em que percorremos um ano inteiro da vida de Bruce/Batman e de Gotham. A história traz novamente a família mafiosa Falcone, já que um membro está sendo assassinado a cada feriado do ano. Enquanto Batman e Gordon investigam este assassino misterioso, algo acontece nas ruas de Gotham.

Alguns simples ladrões e malandros começam a se transformar nos vilões que conhecemos do universo Batman. Se algo nos agrada em Batman, é sua galeria de vilões e nesta obra se celebra bem forte: vemos o Charadista, Hera Venenosa, Espantalho e o Chapeleiro Louco trabalhar para a família Falcone, e Harvey Dent finalmente se tornar Duas-Caras.
Batman: The Dark Knight Returns (1986)

Frank Miller, autor da primeira obra recomendada neste artigo, antes de escrever a nova origem do Batman escreveu o final. Uma obra das mais importantes dos quadrinhos de heróis, com elementos que depois vamos ver usados muitas vezes, mas que nascem aqui. Frankie não só escreve como usa seu estilo ultra brutal de desenho para dar ação a essa história que não tem nem um painel a mais nem a menos.
Nos encontramos com um Bruce Wayne aposentado, de 55 anos e bastante destruído. Vai uma década que não porta o disfarce, depois da morte de Robin (Jason Todd), e Gotham está órfã e hundida em tudo o que ele queria evitar. Este Bruce se esconde no álcool e em correr corridas com sua coleção de carros… mas a pulsão de ser Batman e ajudar a cidade que ama é mais forte.
No transcurso deste título, Batman volta a enfrentar antigos inimigos, que já nesta altura são como amigos do coadjuvante de tanto que se conhecem. Mas também tem que fazer guerra à nova geração de criminosos da cidade, Os Mutantes. Não vai estar sozinho, porque temos o debut de Carrie Kelly, um dos Robins mais geniais do batiuniverso, e a participação de muitos personagens importantes em sua vida. E não podemos omitir a participação do Superman, com talvez a interação mais lembrada entre os dois.

Estes são –para mim– os cinco títulos mais importantes para ler do personagem, na ordem em que os recomendaria para alguém que nunca leu Batman. Obviamente há muito mais para recomendar, mas ficamos com estes imprescindíveis por enquanto, e já continuaremos.