Saltar al contenido
culture

Entrevistas com escritores para quem quer começar a escrever - Episódio VII: Mariana Enríquez

Mariana Enriquez: sustos de infância, ofício jornalístico e a literatura como obsessão.

Por Roberto Chuit Roganovich · 27 oct. 2026 · 16 min

Subscribe Share

Na minha breve experiência com a literatura, ninguém nunca quer escrever. A gente escreve ou não escreve. That's it. Funciona como um peso incômodo, um fantasma insuportável pendurado nas orelhas que te obriga a sentar, abrir um Word e começar a digitar. Mas generalizar o que eu sinto é uma irresponsabilidade, um salto conclusivo bobão que eu gostaria de evitar. Desconfio, então, que existe sim gente a quem um empurrãozinho possa servir.

Por isso decidi começar a trabalhar neste ciclo de entrevistas com escritores para quem quer começar a escrever. Chamei gente que eu respeito e cuja escrita, de um jeito ou de outro, me inspira. Talvez vocês encontrem nas respostas, nos conselhos e nos métodos de trabalho deles aquilo que faltava para, finalmente, começar a pôr uma palavra atrás da outra. A saga continua com Mariana Enríquez.

Samanta Schweblin contou que descobriu que havia algo potente na literatura quando, pequena, inventava histórias para a mãe antes de dormir. Luciano Lamberti disse que também encontrou essa potência quando criança, através de uma tia distante que contava histórias sobre uma suposta "maldição" que pairava sobre a família Lamberti desde os tempos da colônia. Os dois coincidem na infância. Quando você descobriu que era capaz de contar uma história? Quando você se tornou, de algum modo, consciente desse "poder"?

Acho que foi o momento de entender que eu podia mentir e que os outros acreditassem, ou pelo menos ficassem muito inquietos diante da mentira. Eu mentia muito quando era pequena. Toda criança mente muito. Mas tenho uma lembrança que é muito forte. Dá até vergonha de contar. Na minha casa havia um miniarmário subterrâneo, grande, que tinha sido usado na época para guardar comida e coisas assim. Sei lá, ideias estranhas do meu avô, que era paraguaio e capitão de navio mercante. Eu não o conheci, mas ele tinha uma visão muito particular das coisas. Ele queria proteger coisas ali, naquele armário no chão, sei lá. Então eu comecei a dizer para os meus amigos (que eram pouquíssimos quando eu era pequena, porque eu não era muito sociável) que esse meu avô, já morto, estava enterrado ali. E contei para algumas crianças, e elas morriam de medo e piravam feio. E eu sentia um prazer enorme.

Não foi a única mentira. Teve muitas outras. Algumas que não foram tão agradáveis de ter contado e que não estou a fim de contar. Mas é isso: o fato de que, com o tempo, elas foram virando lentamente algo mais complexo e mais patológico foi o que me fez perceber que havia um poder em inventar histórias. Com isso quero dizer: contar uma história, naquela época, não era luminoso nem agradável, mas estava contaminado. Não havia "maravilha" em contar histórias, tinha um lado bem perturbador.

Contar uma história, naquela época, não era luminoso nem agradável, mas estava contaminado. Não havia "maravilha" em contar histórias, tinha um lado bem perturbador.

Concordo com eles (Samanta e Luciano) na questão do adulto “bom contador de histórias”. No meu caso era minha avó. Ela era zero religiosa. Nada. As minhas duas avós. Essa, com quem eu morava, era supersticiosa, sim, e contava suas superstições como coisas reais: fantasmas da família, tragédias da família, sempre com uma franqueza enorme. Fazia isso muito bem. Te deixava perplexa. Histórias tremendas da irmãzinha dela que tinha morrido e que tinham enterrado no campo, e que ela ouvia chorar à noite; da outra irmã, que tinha se suicidado. Coisas tremendas. E contava todas como se fossem coisas vizinhas do conto fantástico. Não contava, pelo menos que eu me lembre, com queixa nem drama, mas quase como fatos curiosos. Esse foi o momento, acho.

Você nunca fez oficina de escrita. Começou a escrever seu primeiro romance quando ainda estava no ensino médio. Tempos depois veio o jornalismo, com seu ritmo aceleradíssimo e seus prazos insuportáveis. Dá para dizer que você aprendeu a escrever, basicamente, escrevendo. De todo modo, tem algum conselho que você recebeu de algum editor e que ainda não esqueceu? Algum conselho que na época te pareceu uma besteira, mas que agora, na vida adulta, você reconhece como certeiro?

Aprendi muito com o Juan Forn. Foi impactante, porque quando acabei levando meu primeiro romance para ele, eu não tinha de verdade nenhuma noção sobre o processo de publicação. Não fazia ideia do que fazia um escritor nem um editor. Vinha de outro mundo. Além disso, estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo, então nem tínhamos começado a "escrever de verdade". Não tinha amigos escritores nem participava de oficinas. Nada, nada, nada.

Ele disse uma coisa que na hora me incomodou muito. Disse algo como: “nisso que você trouxe, a sua geração quer mostrar mais do que consegue fazer”. Aquilo me ofendeu muito, mas não porque eu chegasse carregando um “minha geração”, e sim porque sentia que ele não tinha me entendido nem um pouco. Eu não estava pensando em geração nenhuma, em ruptura nenhuma nem nada do tipo. Acho que ele tinha muito enfiada na cabeça a onda daquela época: Biblioteca del Sur, Babélicos. Uma briga interna que eu desconhecia.

E me ofendi, mas fiquei. Não mandei ele à merda nem nada. Nos primeiros dias foi incomunicação total. Até que ele "se tocou" e percebeu um pouco de onde eu vinha, e aí começamos a trabalhar de um jeito muito mais bruto, de oficina mecânica.

Então veio o conselho, muito próximo daquela primeira coisa que ele me disse. O conselho foi que eu não tentasse fazer coisas que não conseguia fazer só porque a ideia era boa. Não se apaixone pela ideia.

Sobretudo, nesse caso, em relação à forma. Descer é o pior, na primeira versão, tinha todas as partes do Narval em primeira pessoa, em itálico e com um tom muito alucinado. A ideia era reproduzir textos que eu tinha visto assim. E eu gostava que esse narrador estivesse num espaço meio “fora” do romance. A ideia era boa, mas ficava horrorosa, como uma tradução ruim de Jim Morrison, de William Blake. Horrrível. O Juan me disse “passa tudo para a terceira pessoa”. Eu não enxergava. Achava que ia ficar tudo chapado, e que não ia ser o livro louco que eu tinha na cabeça. Mas ele tinha razão.

Não se apaixone pelo livro que você quer fazer e escreva o livro que você consegue fazer. Que é muita coisa. Quer dizer, escrever o livro que você consegue fazer. Porque dá para fazer livros muito foda. Talvez o livro que você quer fazer seja muito frustrante. É importante não se frustrar.

Tem algum livro de escrita criativa que tenha sido, de algum modo, revelador para você?

Nunca li um livro de escrita criativa. Li alguns exercícios quando às vezes dava oficinas, mas bem básicos. Os do Gardner, por exemplo (ela se refere a A arte da ficção: notas sobre o ofício para jovens escritores). Mas nunca li o livro. Li os exercícios do final para trabalhar, e tem alguns que são ótimos de fazer, imagino. Acho que funcionam e são divertidos. Mas sinceramente nunca li um. Nem sei os nomes. Só li esse e o das aulas da Hebe Uhart, mas esse eu li porque é a Hebe, só para ouvir a voz dela.

Ideias romantizadas da literatura supõem que o escritor escreve movido pela própria imaginação e sem muletas de nenhum tipo. Pelo contrário, todos os seus livros têm um enorme trabalho de pesquisa por trás. No seu caso, a pesquisa termina quando você já tem a estrutura narrativa desenhada ou acompanha todo o processo de escrita? Já aconteceu de pesquisar demais "deserotizar" o tema em questão e você largar um projeto pela metade?

A pesquisa acompanha o processo de escrita e eu diria que até o último momento, a última revisão, continuo lendo sobre o que estou escrevendo. Às vezes aparece no último momento algo que me faz dizer “ah, é isso”. A pesquisa acompanha a escrita. Eu sintonizo. Não é que eu só tente juntar toda a bibliografia que existe (no sentido amplo: filmes, livros, relatos orais), mas é algo que em geral já me interessava antes. Se estou com algo que tem a ver com o ocultismo, estou realmente ali: vendo filmes, tendo essas conversas, vibro ali, fico obcecada, ando com meu baralho de Tarô para todo lado. Depois da escrita, óbvio que continuo gostando desses mundos, mas fica ali e passo para outro tema. Andam em paralelo no sentido de que são obsessões que tomam conta da minha vida e também tomam conta do que estou escrevendo.

Não se apaixone pelo livro que você quer fazer e escreva o livro que você consegue fazer.

Depois aprendi que o filtro era um pouco parecido com o jornalístico: você tem que saber um monte e, desse monte, tem que encontrar os estilhaços que servem para o que você está fazendo. Isso faz com que a pesquisa seja uma coisa muito divertida num plano e muito árida no outro. Às vezes, num livro inteiro, você encontra uma coisa só, três parágrafos. Mas tem que aguentar o livro inteiro para encontrar esses parágrafos.

Você está com a sua história, se relacionando com esses outros textos, e num momento acontece o clique. No meu caso, o clique é muito sutil. E funciona assim para mim.

Quanto à deserotização, comigo não aconteceu a ponto de eu não conseguir escrever. Aconteceu, sim, no meu segundo romance “de verdade”, que não publiquei, rasguei. Aconteceu que a pesquisa não serviu. Tipo, acabou sendo uma trama supertênue com uma construção de mundo muito densa que não funcionava como romance.

Sinto que a deserotização passa por outro lugar. Tem a ver com o que eu te dizia do jornalismo.

Você tem que saber um monte e o que escorre é muito pouco. É muito cansativo. Mas é o meu processo, e eu não espero que um processo criativo seja sempre agradável e divertido. É trabalho. É trabalhoso. Não gosto de dizer que é trabalho. Não é trabalho. É trabalhoso. Então tem que ter essa parte que é meio um saco.

Como você sistematiza a informação que vai reunindo? Anotações à mão? Algum software como Obsidian, Notion, Miro? Ou mais pastas infinitas com infinitos Words?

Meu jeito de sistematizar a informação é um porre, na real. Quer dizer, em geral, tenho todos os livros grifados. E depois copio esses grifos em notas. Agora posso fazer ditados, mas durante muitos anos eram cadernos e um Word enorme com uma coisa embaixo da outra, nah, um desastre. Em geral é isso: um caderno e um Word.

Adoro, visualmente, ter todos os livros, abri-los. Adoro aquela ideia “antiga” do escritório com livros por todo lado, marcados. Olho e digo “isso é lindo”, mas depois acontecem coisas que têm a ver com a idade, do tipo “não entendo minha própria letra” (risos). Então toda essa “estética” acaba desembocando num caos que até hoje consigo desvendar, mas que, francamente, preciso rever.

Ainda confio muito no que consigo lembrar, o que não é bom. Vou ter que começar a mudar porque já estou velha e esqueço. Basicamente, a cabeça não funciona do mesmo jeito. Mas sim, é superanalógico, antiquado.

Não faço anotações random. É raríssimo eu ter uma ideia e gravar um "áudio". As vezes que fiz isso ficaram por isso mesmo. E depois nunca mais ouvi nem olhei. Não é o meu método. Tenho que persistir com este e acrescentar algum tipo de ordem que me ajude com o fato de eu ter menos memória (risos).

Existe a ideia generalizada de que a literatura é uma arte solitária. Nada mais falso. Sempre há terceiros, quartos, quintos dando uma mão. Você mostra o que vai escrevendo? Para quem? Se mostra, em que parte do processo de escrita costuma fazer isso?

Sabe que para mim o processo é bem solitário? Não sei se é porque comecei assim e o primeiro hábito acaba ficando meio ativado. Mas durante o processo de escrita eu mostro muito pouco. Mostro quando já está bem montado. E não tenho muitos leitores. Tenho uns dois leitores muito amigos meus, que não são escritores.

Mostro de um jeito, entre aspas, muito profissional. Meu ideal seria trabalhar sempre com um editor, e neste momento eu trabalho com minha agente, María Lynch (da agência literária espanhola Casanovas & Lynch). Quando termino o primeiro rascunho e preciso “fazer os curativos”, María. E depois quem lê é a Silvia (Sesé), a editora da Anagrama. E não muita gente além disso, na real. Durante? Nada. Nada, nada, nada.

Durante o processo de escrita eu mostro muito pouco. Mostro quando já está bem montado. E não tenho muitos leitores.

No final, sim. E isso pode significar grandes mudanças no texto. Pode ser que a María leia, ou que algum dos meus amigos me diga “what the fuck com tudo isso” ou “por que você está começando o romance por aqui quando na verdade ele tem que começar por este último capítulo?”. Às vezes essas intervenções produzem uma mudança enorme ou uma reformulação ou cortes brutais ou ampliações brutais, depende.

Até certo ponto, tenho que ir sozinha. E é um trecho bem longo esse que eu faço sozinha.

Quão aberta você é a reformulações e revisões de terceiros? Os retornos te servem?

Muito. Mas é porque, se eu peço retorno, é porque já estou pisando em tábuas que não estão necessariamente firmes, mas que já estão “feitas”. Já foram raspadas, já têm a primeira demão de tinta, etcétera. Ou seja, ainda falta um monte, mas já existe alguma coisa. Quando eu mostro, já estão ali a estrutura, o que eu quero e a cor. Então aí sou muito aberta a retornos. Aí consigo deixar outra pessoa entrar, porque já estou tranquila num nível talvez mais pessoal. Não sei. Talvez tenha a ver com autoestima. Não sentir que sou uma farsa, ou alguém cujo texto os outros estão montando, ou alguém que está sendo ajudada demais.

Peço retorno no momento em que já passei de uma etapa em que tive muita agência. Não sei se aguento me relacionar com o texto que escrevo quando há intervenções muito precoces, porque eu sentiria que a ideia já não é minha e me daria tipo um ataque de insegurança.

Você disse uma vez que, quando escreve, surge um estranho espaço de transe, que seus amigos e seu companheiro precisam entender que você está "locked in", e que é difícil tirar você desse estado. Nada mais, nada menos que isso: muitas, muitas, muitas horas de trabalho em silêncio, sem responder mensagens, sem ser talvez muito carismática, "out of joint". Existe algo que você tenha sacrificado pela escrita e de que hoje se arrependa?

Sou muito flexível com o “locked in”. Escrevo o dia inteiro, digamos, e se tenho um jantar à noite, vou jantar e tudo bem. Talvez tenha muito a ver com o jornalismo, que te ensina a “soltar”. Não só no sentido de que há textos que precisam ser entregues por causa de um deadline, mas também porque te obriga a parar de encher o saco com a ideia da ultraimportância do texto e com a ideia de que existe algo acontecendo naquele momento e não em outro, e que existe algo abstrato que você tem que captar, e que se não for naquele momento não vai ser capturado.

O jornalismo às vezes te diz que, mesmo que algo seja efêmero e finito, não tem problema perder, porque de qualquer forma você pode recuperar amanhã. Mentira. Você não vai recuperar amanhã. Tem mais a ver com disciplina do que com inspiração.

Os sacrifícios. Olha… Ufa. Mas não só pela escrita. O trabalho de jornalista e o trabalho intelectual em geral. (Longo silêncio). Tem um monte de coisas ligadas ao físico de que me arrependo muito. Tipo, não sei nadar (ri). Não me ensinaram a nadar. Tem muitas coisas que eu teria gostado de fazer. (Longo silêncio). Nadar, jogar tênis, mas a sério, hein, não como distração de fim de semana. Ter uma vida mais assim. Dirigir, fazer viagens de carro. Não acho que tenha sido só a escrita. (Longo silêncio). O trabalho de jornalista são muitas horas lendo, conversando com outra pessoa, assistindo ao filme, pensando na resenha, e sinto que teria gostado de fazer um monte de coisas que não estivessem em absoluto nessa sintonia. Ver mais jogos de futebol, sei lá. Coisas. (Longo silêncio) É. É por aí.

Uma vez Diego Capusotto, a propósito de uma pergunta sobre o programa Cha Cha Cha (1992-1997), disse: "Na televisão existe um mito com essa história da improvisação. As pessoas acham que a gente chega no canal, toma duas balas e faz qualquer coisa. Mas não é verdade. Bom, que a gente toma duas balas, sim, mas que improvisa, não. Em todo caso, as balas a gente toma depois". De outro ponto de vista, Herzog dizia que, muitas vezes, o que ele tinha planejado acabava mudando não só na montagem, mas na própria filmagem. Quanto do que você escreve acaba de fato ficando no que vemos como produto final? Quão minuciosa você é com a tarefa da revisão?

Não muito. Se fosse para dar uma porcentagem, eu diria uns 50 por cento.

Em geral tenho umas três ou quatro cenas canônicas que escrevo primeiro e que costumam ficar, o que é um problema meio fetichista, porque depois, se tenho que cortá-las ou tirá-las por qualquer motivo, me custa, e são das últimas a sair. Essas costumam ser tipo fundamentais no edifício, porque: ou ficam até o final, ou são cenas em torno das quais eu escrevo e que posso acabar tirando eventualmente, mas que precisavam estar ali por algum motivo.

Corto muito, sim. Tiro muito. Sou muito… prolixa. Preciso escrever muitíssima informação e muitíssimo desenvolvimento para entender. Se você vir meus primeiros textos, está tudo ali: muita digressão, muito detalhe, descrição. Textos, eu diria, muito barrocos. E depois vou cortando. Preciso tirar tudo das gavetas: as sete colheres, as cinco facas, tudo o que vou precisar. E contar, e enumerar, e fazer o inventário na primeira versão, e depois ir cortando.

Não sou minuciosa na revisão. Sou bem brutal no começo. Primeiro é limpar, limpar, e mesmo assim eles ficam bem carregados, e eu gosto de textos carregados. Gosto de Donoso, gosto de Mujica Lainez, dos escritores do gótico sulista.

Uma primeira versão com “iceberg”, por exemplo, é uma coisa que eu não consigo entender (ri, referindo-se à “teoria do iceberg” de Ernest Hemingway).

Suponhamos que a gente divida o processo criativo em três partes: pesquisa, escrita, revisão. De qual você gosta mais e de qual gosta menos, e por quê?

Vai mudando. Agora a de que mais gosto é a etapa da revisão. Você senta e diz “bom, vamos ver com clareza, vamos ver o que funciona, o que não funciona”. Não tenho medo de que a coisa não funcione. Não no sentido arrogante de achar que vai funcionar, mas que, se não funcionar, tenho mais espaço mental para deixar ir, mudar, mexer, tentar fazer funcionar. Me deprime menos se não funciona. Me desanima menos se não funciona.

A escrita, agora, hoje, em segundo. Embora venha junto com a pesquisa. A escrita é mais aventureira, mas ao mesmo tempo é mais exaustiva. Gosto muito das três, na verdade.

O que acontece é que a revisão tem a libido da chegada. Pronto. É outro momento.

Existe um bicho-papão entre os escritores jovens e nem tão jovens. A repentina falta de "inspiração" e a folha em branco. Acho que há muito pouco que se poderia perguntar a você sobre o assunto. Basicamente porque você não para de escrever. O que você poderia dizer a um escritor jovem que está passando por esse mal-estar?

Comigo a “página em branco” não acontece. Não por falta de inspiração ou por não ter o que dizer, mas mais por cansaço, ou por ter vontade de fazer outra coisa, ou porque preciso tirar um tempo para reencontrar o lado divertido e prazeroso da escrita.

Se tenho que dar uma espécie de conselho, bem entre aspas, posso compartilhar o que acontece comigo, como funciona em mim o “destravamento”. Meu destravamento sempre tem a ver não tanto com me relacionar com a vida, mas com a leitura e com a música, e com tentar encontrar a chave para esse branco. Reencontrar o entusiasmo, a voz, mas na voz dos outros. Por isso gosto de poesia.

O que mais me ajuda é essa forma estranha de pedir ajuda.

A exposição brutal à qual você está sendo submetida em nível global te intimida um pouco, te faz sentir que talvez você não acerte de novo, ou, pelo contrário, renova a sua energia para continuar produzindo?

Você acha que é brutal? Eu não sinto tanto. A sensação é diferente de dentro e de fora. Não sei bem o que aconteceu, na verdade. Você se sente mais observada. “Ah, vão falar mais coisas do livro quando sair”. O estranho é que dói muito pouco, ou que é de baixa intensidade. Não sei como te explicar: está ali, mas não sinto como algo pesado, e sim como algo muito leve. Muito presente, mas muito leve.

Meu destravamento sempre tem a ver não tanto com me relacionar com a vida, mas com a leitura e com a música, e com tentar encontrar a chave para esse branco.

Quando saiu Um lugar ensolarado para gente sombria, teve um momento em que as pessoas (as pessoas, sei lá, nem sei quem são as pessoas, aspas, blá-blá-blá) estavam naquela de “e agora, com o que ela vai voltar?”. Esse livro apanhou bastante. Eu não leio muito, mas me contam. Disseram tipo que já não estava no mesmo nível; muita outra gente dizia que eu estava escrevendo “para fora”, porque o texto esclarecia que tal rua ficava “no Once” (ri). Tudo muito histérico.

E começou a coisa do “superestimada” e tudo isso. Coisa com a qual eu concordo um pouco, porque eu também acho que o que faço tem muita divulgação, e noto a ansiedade de alguns para falar comigo, ou a cobertura, ou o fato de existirem algumas adaptações para o cinema. Eu também estaria um pouco de saco cheio de mim, se não fosse eu (ri). Quando acontece com um artista, comigo também acontece: "está em todo lugar, não aguento mais a cara dele". Não é que eu não consiga entender. Isso não quer dizer que não te incomode, ou que você não se sinta um pouco mal porque fere o ego que as pessoas digam que você é superestimada e “não aguento ela, está em todo lugar”. Sei lá. Elas têm razão, comigo seria a mesma coisa.

Não sinto que, por enquanto, e no que estou trabalhando, essas circunstâncias atrapalhem demais. Mas sabe por que eu acho isso? Porque sou velha. A exposição começou pra valer depois da pandemia. Já de cara um momento estranho para estourar, porque eu estava paranoica, numa fase daquelas, com o mundo enlouquecido. E depois, quando começa pra valer, em 2022, digamos (com a fan art, o filme, o Larraín me procurando, o prêmio não sei das quantas), eu já tinha quase 50 anos. E eu diria que, quando sai As coisas que perdemos no fogo, em 2016, que é o primeiro publicado pela Anagrama, uma editora com outra projeção, eu já tinha 42 anos. Era uma adulta. E antes de ser essa adulta eu tinha passado a vida ralando sem glamour nenhum. Isso muda muito a sua perspectiva, mas não só porque não te deixa deslumbrada, porque você pode se deslumbrar em qualquer idade, e sim porque aquilo não foi o seu modo de vida durante muito tempo. Então, até eu me adaptar a isso, vai passar muito tempo.

Todos nós que tentamos escrever roubamos. De onde você rouba? Por que roubar é importante?

Eu roubo sobretudo da música, das letras. É, isso: universo música, letra, história. Esse é o primeiro espaço. E depois roubo muito dos livros de que gosto. A essa altura acho que roubo de mim mesma também.

É importante roubar, mas é importante citar: não achar que o que a gente tem é algo próprio, ou que não tem nenhuma influência, ou que é mais interessante que os outros. Você está em comunicação com tudo. É inevitável que seja assim. Então, que isso não fique claro no que você faz é estranho.

Eu roubo sobretudo da música, das letras. É, isso: universo música, letra, história. Esse é o primeiro espaço.

A loucura pela originalidade é uma verdadeira loucura. Se você tem talento de algum tipo, mesmo que não seja um grande talento, mas um talento e pronto, e tem algum tipo de personalidade, isso vai aparecer, e não vai se parecer com nada, porque você não se parece com ninguém. Acho que já estou falando besteira (ri).

(Faz uma pausa de alguns minutos. Me manda umas fotos da casa dela na Austrália)

Três filmes. Três discos.

Cidade dos Sonhos, de David Lynch. Velvet Goldmine, de Todd Haynes. E... vamos de um clássico: Garotos de Programa, de Gus Van Sant.

Três discos é uma crueldade horrorosa, mas vamos ver. Live Seeds, do Nick Cave and the Bad Seeds. O da banana, do The Velvet Underground e Nico. Um terceiro. Que difícil. Impossible. Vamos de outro clássico: Exile on Main St., dos Rolling.

O que eu tenho que fazer se quiser começar a escrever? Por que eu deveria me arriscar?

Que pergunta estranha essa de por que eu deveria me arriscar, porque pressupõe que existe algum tipo de risco. Estou tentando pensar em por que eu comecei. Eu não sabia fazer nada quando comecei. Nada: não sabia cozinhar, não sabia dirigir, não sabia pintar. Tinha tentado tocar violão, mas não saía. E imagino que deve haver gente que consegue passar pela vida sem nada em que sinta que é boa, ou sem nenhum lugar onde tenha vontade de jogar todas essas coisas que a gente pensa e sente (Faz uma longa pausa). Mas, não.

Estou olhando agora para uma pessoa pela janela. Ela está no jardim do vizinho cuidando das plantas. E penso: bom, essa pessoa, primeiro, está fazendo algo que eu não sei fazer e que leva um monte de tempo, e imagino que ali ela coloca tudo aquilo que é inexprimível e que tem a ver com a conversa permanente que a gente tem consigo mesmo ou com seja lá com quem estiver falando.

Eu precisei colocar isso na escrita.

Suscribite