A esquerda não consegue fazer memes?

Em 2016, durante sua décima nona temporada, South Park sentenciou as eleições presidenciais entre Hillary Clinton e Mr. Garrison — um proxy de Donald Trump — como a disputa entre um sanduíche de merda (turd sandwich) e um preservativo gigante (giant douche). Mais aquém do canal do Panamá, vem à cabeça uma piada de @bauerbrun sobre o sistema democrático como a eleição, com sabor de nada, entre "chicken or pasta" no avião.

Diante de um mundo, no mínimo, complexo e em mudança, alguns jovens mobilizam a reação restauradora do "ocidente" em espaços como 4Chan. Mas nem tudo está perdido. Uma aldeia gaulesa, progressista, de esquerda e filo-marxista, resiste. Claro. Na internet florescem podcasters, youtubers e outros criadores que leem, interpretam e propõem narrativas de esquerda ao dilema democrático do bolo de merda e do preservativo. Seus favoritos: Contrapoints e Chapo Trap House. Mas nem tudo fica na internet. Alexandria Ocasio-Cortez é a primeira política jovem, filha de imigrantes, que ganha uma cadeira no congresso dos Estados Unidos pós Trump. Seus inimigos não param de acusá-la de socialista.

O desencanto com o establishment também pode vir pela esquerda.

ContraPoints

Natalie Wynn é uma garota trans que se dedica a fazer vídeos no Youtube. Seu canal, ContraPoints, tem 438 mil seguidores e 7366 Patrons, uma plataforma que permite monetizar conteúdo online. Seu vídeo mais bem-sucedido — onde explica e refuta a lógica argumentativa dos incels — tem 1,7 milhões de visualizações. Com uma background em filosofia e uma clara inclinação para o drag, ContraPoints discute temas vinculados com a justiça social e adjacentes com o objetivo de:

"oferecer um contrapeso ao ódio, tão comum na internet, contra os movimentos progressistas. Com estilo, tento agradar a audiência mas também tento evitar pregar sobre coisas nas quais a maioria concorda. Tento fazer vídeos que eu gostaria de ver: bem produzidos, informados, engraçados e entretenidos".

Seus vídeos são ótimos, seus argumentos bastante sólidos e suas atuações têm o nível suficiente de produção para se tornar um conteúdo solicitado na rede. Viral e de esquerda não são conteúdos comuns. Pelo contrário. A principal contribuição de Natalie para o desarme de posições de direita como o racismo ou o machismo, se baseia em sair do mero lugar de se sentir ofendido, para poder discutir o núcleo: os argumentos.

Contrapoints se encarrega do trabalho que ninguém de esquerda quer fazer: refutar o que parece "óbvio". Qualquer pessoa com uma background em ciências sociais, com o CBC terminado, ou com um pouco de empatia por outros seres humanos, percebe rapidamente que a nova direita muitas vezes beira a idiotice. É o dilema de discutir seriamente com um terraplanista. Mas a realidade é que não há outra opção. Se não há discussão, a direita monopoliza as explicações sobre o mundo.

Alguém tem que meter os pés na lama. Há que se brigar com o senso comum. ContraPoints se encarregou e por isso a amamos.

"O dissenso político começa com vagos sentimentos de que algo anda errado. E um monte de gente sente que as coisas como estão não funcionam. Mas o problema com sentimentos vagos é que podem se canalizar para qualquer direção. A mesma ansiedade pode levar as pessoas ao comunismo ou ao fascismo, ou para qualquer coisa no meio. O sentimento geral entre gente jovem é o de que nos mentiram — e esse sentimento é talvez o mais agudo entre os homens brancos de classe média, a quem aparentemente prometeram que poderiam ser milionários ou deuses cinematográficos ou estrelas de rock—. O termo "floco de neve especial" que se usa hoje como derrogatório dos adolescentes gays vem na verdade do filme Clube da Luta, onde se refere a uma geração de caras brancos que cresceram só para perceber que são mais fracos que seus pais; que não têm empregos glamorosos; que não têm namoradas; e mais recentemente, que no mundo dos videogames sua soberania está sendo desafiada (…)
A coisa é que os caras brancos nem estão nem errados com o fato de que a sociedade os está fermentando de alguma maneira. O tema é que está fermentando a todos os demais ainda mais. Então a masculinidade de toda essa análise direitista da sociedade está exatamente ao contrário: caras, vocês não estão sendo dominados por uma conspiração judeo-feminista para transformá-los em uns putinhos sem vontade***. O marxismo cultural não foi o que te transformou em um consumidor plácido de IKEA. Isso foi o capitalismo".

All I wanna be is El Chapo

Assim como Contrapoints triunfa no Youtube com uma narrativa progressista, Chapo Trap House o faz em outro formato: o podcast.

Se conheceram por Twitter postando sobre o panorama político americano. Por volta de 2016 se tornaram um podcast de comentário e sátira política; no ano passado editaram seu próprio guia para alcançar a Revolução (mesmo assim, recomendam que não o comprem). Will Menaker, Matt Christman, Felix Biederman, Amber A'Lee Frost, e Virgil Texas são Chapo Trap House e mapeiam "o panorama podre da política e da cultura norte-americana contemporânea, através de nossa ideologia científica da ironia, um marxismo mediano, disciplina revolucionária, NoFap November** e postagem na internet".

Vão pelo episódio 286 e — entre uma dinâmica que discorre à base de longos comentários sobre o panorama político, toneladas de referências bizantinas de internet e a destruição sistemática de editoriais escritos por jornalistas e políticos de todos os matizes em mídias mainstreamreceberam a bênção de serem resenhados pela New Yorker como parte da esquerda miserável.

Agora são famosos, vivem das milhares de assinaturas pagas ao seu podcast mas alegam ter perdido tudo em um mau investimento em Bitcoin Dark — uma criptomoeda de qualidade duvidosa— .

E sim, é por baixo:

"Não sabemos muito. Mas sabemos isto: enquanto a oposição liberal a Trump (e a qualquer outro pesadelo que venha depois de Trump) se revela como incompetente e irresponsável, mais e mais gente vai perceber que não se pode consertar um sistema baseado na exploração e no crescimento econômico infinito. O socialismo emergirá como a única alternativa genuína ao sistema capitalista gângster, selvagem e desesperador — uma alternativa que efetivamente oferece um futuro; um onde há recursos suficientes para cuidar de todos e enfrentar os desafios da Humanidade com um toque de dignidade. É isso ou nos afogamos em água salgada fervente. Sempre é bom ter opções".

"America's favorite commie": Alexandria Ocasio Cortez (AOC)

Alexandria Ocasio Cortez (AOC), congressista democrata-socialista à la Bernie Sanders por Nova York, com apenas 29 anos derrete o gelo dos corações progressistas e incendeia a fúria da Fox News. Desde um bar/bunker de campanha repleto dos que poderiam ser o similar dos comensais de brunch dominical no Café Crespín, Alexandria Ocasio Cortez, democrata socialista originária do Bronx, descobre que acabou de vencer a primária democrata para disputar a vaga pelo distrito de Nova York para a House of Representatives. Enquanto sai ao vivo para um canal local de televisão, relembra em voz alta o discurso de seu vídeo de campanha:

"sei que cada uma das pessoas aqui se matou de trabalhar para mudar o futuro do Bronx e Queens. E que esta vitória pertence a cada uma das organizações de base que trabalharam por isso, a cada pai trabalhador, a cada mãe, a cada avó, a cada membro da comunidade LGBTQ que trabalhou por isso. Cada um é responsável por esta vitória".

Em 2018 venceu primeiro a primária do partido; depois, um lugar na câmara baixa como representante do Bronx e Queens contra o republicano Anthony Pappas à força de "100% território", zero dinheiro de empresas e uma agenda quase tártara para o americano médio: educação universitária gratuita; saúde gratuita e um novo compromisso com o cuidado do ambiente. Amada pelo progressismo americano e temida pela Fox News e CNN. Estes, porém, parecem entender melhor o que é sua plataforma do que os próprios democratas, ainda se perguntando como é que Trump conseguiu ganhar de Hillary.

"Esta eleição é a do povo contra o dinheiro. Nós temos povo, eles têm dinheiro. É hora de percebemos que nem todos os democratas são iguais. Um democrata que recebe dinheiro de empresas, que se beneficia do leilão de propriedades hipotecadas, que não envia seus filhos às nossas escolas, que não toma nossa água ou não respira nosso ar não pode nos representar nem um pouco".

Ocasio Cortez é a primeira política de esquerda americana a vencer uma eleição pós Trump com um discurso anti establishment. Ao arsenal de skills que um político tem que ter, a eleição de Trump lhe adicionou uma: se tornar um meme.

Há algumas semanas, Ocasio foi o alvo de uma campanha de difamação fracassada. Um membro do partido Republicano zombou de um vídeo dela dançando em um terraço que tinha gravado quando estava na universidade. O vídeo se tornou viral, favoreceu Ocasio Cortez e a transformou em uma celebrity no Twitter. Além disso, seu time de imprensa está em constante busca de espaços onde fazer conteúdo e gerar conversa. Ocasio Cortez usou Twitch — uma plataforma de streaming de videogames — para falar sobre os direitos das pessoas transgênero. É comum que pelo menos uma vez por semana apareça uma thread sua em 4chan. Se a montanha não vai a Maomé…

Batalha cultural

4chan se pergunta se ContraPoints está ganhando a batalha cultural.

Voltou a batalha cultural. E em forma de fichas.

De forma esquemática, a batalha cultural se entende como a luta entre duas ideologias por instalar uma explicação hegemônica — única ou, ao menos, majoritária — de como funciona o mundo. É nesse marco onde o comentário acima faz sentido. Depois de muitos anos de estar relegada no plano cultural, a direita fez a tarefa, leu Gramsci e a escola de Frankfurt e se deu conta que, se queria sobreviver, não podia ficar calada.

Nessa chave, para eles, as eleições de 2016 foram uma batalha cultural onde desdobraram seu arsenal mais temido: os memes. O resultado da eleição foi tomado como uma vitória do eixo conservador e uma reafirmação da importância de dar a batalha no plano do discurso.

Left can't meme

Um meme para explicar a assimetria entre os memes de direita e de esquerda.

Vão quase dois artigos falando de memes e ainda não dei uma definição clara. Um meme não é só uma imagem engraçada da Internet feita em paint. A primeira vez que me deparei com a definição de meme foi em um texto do filósofo analítico Daniel Dennet que, por sua vez, cita o biólogo Richard Dawkins. Segundo a interpretação de Dennet os memes podem ser ideias, objetos, eventos, com alta capacidade de se auto replicarem e suportarem a pressão seletiva do entorno cultural. Isso quer dizer que cada meme "luta" contra os outros memes para captar a atenção dos agentes e depois se replicar. A roda, por exemplo. A roda é um invento e ao mesmo tempo um próprio transmissor da ideia de roda. Cada roda é um objeto com certa utilidade ao mesmo tempo que um vetor de seu próprio meme. E os memes competem entre si, na cultura, para se replicarem e garantir sua existência ao longo do tempo. Podem ser um vídeo, uma frase, uma foto. O que vier.

O meme acima tem um ponto. Os memes de direita são efetivos. Trabalham sobre o senso comum, reforçam estereótipos e podem ser agressivos. Para fazer piadas, têm mais facilidade. A esquerda está em desvantagem. Há uma assimetria de comprimento entre o senso comum e sua crítica. É mais fácil replicar o senso comum — que em geral é conservador — que esboçar uma crítica. Mas hoje, essa capacidade de fazer síntese para explicar e transmitir um conteúdo é crítica.

Chapo, ContraPoints e AOC são exemplos de que é possível romper essa assimetria. Pode-se, e é urgente, criar conteúdo viral progressista. Disso depende em grande medida o rol que ocupe no discurso público e portanto, na política.

Em definitiva se trata da luta por instalar uma narrativa. Os conservadores se atualizaram rápido e utilizaram todo o desencanto com o sistema político para levar água ao seu moinho. Agora a esquerda, o progressismo, tem que recuperar terreno e oferecer uma alternativa ao establishment por esquerda. Isto é, com todos dentro: imigrantes, trans, pobres e desclassificados. Uma frente contra o racismo e o ódio.

A chave está na magia dos memes.

Related posts

Suscribite