Há algumas horas, na madrugada desta quarta-feira 24, estava revisando este artigo quando vi, quase em tempo real, uma notícia que lhe dava novo sentido e me obrigava a começar de forma diferente: a confirmação de que uns restos encontrados em 2019 na cabeceira do rio Chico, perto do Lago Colhué Huapi, no sul de Chubut, de fato correspondiam a um novo dinossauro que habitou solo argentino há mais ou menos 70 milhões de anos.
É o Joaquinraptor casali, de sete metros e mil quilos. Crânio alongado, cauda longa e braços consideráveis com umas garras brutais. O mais parecido a um Deathclaw de Fallout que tenha pisado o país. A imagem aqui abaixo é uma ilustração de Andrew McAfee para o Carnegie Museum of Natural History. Sim, comia crocodilos.

Mas para chegar a esse bicho há que ir bem longe, 132 anos no passado, até os inícios da paleontologia argentina com as descobertas pioneiras de 1893. Nesta primeira parte do Catálogo de Dinossauros Argentinos de 421 vamos ver esses primeiros antecedentes e tudo o que aconteceu durante o século XX.
A singularidade argentina
A paleontologia argentina, ou pelo menos a descoberta e estudo de restos de dinossauros no país, é uma tradição que deu achados em três séculos distintos. O percurso começa com a exploração naturalista dos pioneiros do século XIX, com suas coletas e observações; vai para a institucionalização do estudo no século XX, com universidades, ministérios, museus ou o Conicet; e chega ao século XXI somando a aplicação de novas tecnologias e o design de marcos de proteção patrimonial.
Nesse arco, se passa de encontrar pedacinhos de ossos ou dentes soltos a dar com esqueletos quase completos ou ninhadas completas de ovos fósseis, revalidando a singularidade argentina. Porque assim como nossa ufologia é única no mundo, este solo também contribuiu com informações fundamentais para o estudo dos dinossauros e outras formas de vida pré-histórica.
Somos referentes pelo excepcional registro de restos mesozoicos na Patagônia, no Noroeste e, fundamentalmente na bacia de Ischigualasto (Vale da Lua), San Juan. Este sítio único onde se encontraram alguns dos dinossauros mais antigos conhecidos a nível global, como o Herrerasaurus ischigualastensis, em 1963, início da paleontologia moderna na Argentina e marcando a América do Sul como cenário evolutivo crucial dos répteis mais icônicos do passado.
Nos anos 80 se descobrem o do norte Saltasaurus loricatus e o patagônico Carnotaurus sastrei –um abraço braço curto para Juan Ruffo–, que já começam a marcar diferenças fortes entre os bichos do sul e os do outro hemisfério. Nos anos 90 caem o Amargasaurus cazaui e o patriótico Argentinossaurusaurus huinculensis –de pé, povo–, um dos bichos mais colossais que jamais tenha pisado a face da terra.
E as coroações de glória não terminam: depois vão chegar os saurópodes titânicos que levam o gigantismo a limites biológicos, os terópodes distintivos e únicos que não existiram em outro lugar, faunas triássicas basais que explicam a origem de muitos grupos de dinossauros e registros de alguma que outra estratégia reprodutiva singular como os sítios de ninhadas. Entre tantos marcos aparecem outros referentes como José Bonaparte e Osvaldo Reig. E uma divulgação a nível social sustentada desde instituições como o MEF, em Trelew, ou os Museus de Ciências Naturais de La Plata e Buenos Aires.
No aspecto legal, os achados e descobertas estão contemplados pela legislação moderna e são bens culturais reconhecidos pela Lei 25.743 de Proteção do Patrimônio Arqueológico e Paleontológico, de 2003, que regula seus protocolos e formas de resguardo, circulação e estudo. Mas tudo o que vem sendo o século XXI em matéria de dinos argentinos virá na parte 2.
Os dinos são nossos, os pioneiros são alheios
Mal que nos pese, os primeiros em descrever ou propor espécies nativas da Argentina a partir de ter encontrado fósseis foram estrangeiros. Em 1893, o naturalista britânico Richard Lydekker definiu os primeiros dois dinossauros locais: o Titanosaurus australis (hoje Neuquensaurus australis) e o Argyrosaurus superbus, ambos patagônicos e com descrições em discussão.
Em 1899, com um pedaço de fêmur e um dente encontrados em Santa Cruz, o italiano Florentino Ameghino erigiu o Loncosaurus argentinus. Em 1901 foi o inglês Arthur S. Woodward, com o Genyodectes serus. E em 1929, o alemão Friedrich von Huene somou o Laplatasaurus araukanicus (encontrado em Neuquén, ó) e o Antarctosaurus giganteus. E embora eu tivesse me emocionado acreditando que já em 1947 tínhamos o primeiro dino argentino definido por um cientista argentino, caí em isca: o Ángel Cabrera que localizou o Amygdalodon patagonicus era espanhol.
Mas então, em 1963 se dá o big bang da paleontologia argentina propriamente dita, o ponto de encontro entre a espécie nativa e o observador nativo, com a descrição nas mãos de Osvaldo Reig do Herrerasaurus ischigualastensis, uma espécie de velocirraptor crioulo. O bicho que dá início ao nosso Catálogo de Dinossauros Argentinos, com dez espécies encontradas entre 1963 e 1998.
Herrerasaurus ischigualastensis (1963)

Descrito por Osvaldo Reig em 1963, Herrerasaurus ischigualastensis provém da Formação Ischigualasto, em San Juan, datada no Carniano (Triássico Superior, ~231 Ma - milhões de anos-). O holótipo (PVL 2566) inclui um crânio quase completo e grande parte do esqueleto. Nomeado em honra a Victorino Herrera, o baqueano que descobriu os primeiros restos em 1959 no "Vale da Lua".
Media entre 3 e 6 metros de comprimento e pesava uns 200–300 kg. Era bípede, com patas traseiras robustas e dianteiras mais curtas mas providas de garras. Seu crânio alongado tinha dentes recurvados e serrilhados, adaptados à dieta carnívora.
Sua importância científica é enorme: representa um dos dinossauros mais antigos conhecidos e foi central nos debates sobre a evolução precoce dos terópodes e saurísquios. O conjunto fóssil de Ischigualasto, além disso, mostra a coexistência de Herrerasaurus com outros dinossauros basais e sinápsidas, oferecendo uma visão única dos ecossistemas triássicos.
Saltasaurus loricatus (1980)

José Bonaparte e Jaime Powell descreveram em 1980 a Saltasaurus loricatus a partir de restos encontrados na Formação Lecho (Campaniano–Maastrichtiano, Cretácico Superior ~ entre 73 e 66 Ma) em Salta. Saltasaurus significa "réptil de Salta, enquanto loricatus "protegido por pequenas placas blindadas".
Era um titanossauro de tamanho pequeno em comparação com outros membros do grupo, de uns 12 metros de comprimento e um peso máximo de 6 toneladas. Seu traço mais destacado é a presença de osteodermos (placas ósseas dérmicas) no dorso, constituindo a primeira evidência clara de "armadura" em um saurópode.
O holótipo inclui vértebras, ossos das extremidades e placas dérmicas. A combinação de tamanho reduzido, proporções gráceis e armadura dérmica distingue a Saltasaurus de outros titanossauros gigantes.
Abelisaurus comahuensis (1985)

Abelisaurus foi descrito por Bonaparte e Novas em 1985 a partir de um crânio incompleto (holótipo MC 11098) encontrado na Formação Allen (Cretáceo Superior, Rio Negro/Neuquén ~ 83 Ma). Seu nome significa "o lagarto de Abel de Comahue".
Estima-se que alcançava 7–9 metros de comprimento e 1,6 toneladas. Seu crânio robusto, com uma mandíbula poderosa e armado de dentes longos e comprimidos lateralmente, o coloca entre os abelissáuridos, grupo característico de Gondwana. E embora não possuísse grandes chifres ou estruturas ósseas como seus parentes apresentava duas pequenas cristas rugosas sobre sua cabeça.
Embora conhecido apenas por seu crânio, o achado foi fundamental porque demonstrou a existência de uma linhagem de terópodes até então desconhecida. Sua descrição antecedeu o achado de esqueletos mais completos como Carnotaurus e outros abelissáuridos patagônicos, consolidando a importância da Argentina na paleontologia de terópodes.
Carnotaurus sastrei (1985)

Descoberto em 1984 em Chubut e descrito em 1985 por Bonaparte, Carnotaurus sastrei provém da Formação La Colonia (Cretáceo Superior, ~72–69 Ma). O exemplar holótipo (MACN-CH 894) está quase completo e inclui um crânio excepcionalmente bem preservado. Seu nome genérico provém do latim carnis que é "carne", e torus, que é "touro", então seria o "touro carnívoro". Enquanto que sastrei é em homenagem a Anselmo Sastre, dono da estância (Pocho Sastre) onde foi encontrado o primeiro e único espécimen.
De 7–8 metros de comprimento e 1.5 toneladas de peso, se distingue por seus chifres sobre os olhos, o focinho curto e os membros anteriores extremamente reduzidos. Encontraram-se impressões de pele que mostram um mosaico de escamas poligonais não sobrepostas. Além disso, possuíam a pele incrustada de pequenos osteodérmis alinhados em paralelo à coluna com aspecto similar ao dos crocodilos atuais.
O esqueleto completo permitiu reconstruções detalhadas da anatomia e biomecânica dos abelissáuridos. Hoje é um dos dinossauros carnívoros mais emblemáticos da Argentina, chave para compreender a radiação deste grupo em Gondwana.
Amargasaurus cazaui (1991)

Descrito em 1991 por Salgado e Bonaparte, Amargasaurus provém da Formação La Amarga (Barremiano–Aptiano, Cretáceo Inferior, Neuquén ~ 129 a 122 Ma). O holótipo (MACN-N 15) inclui um esqueleto quase completo. Seu nome significa "lagarto da Amarga", em referência à Formação La Amarga onde foi descoberto. O epíteto específico, cazaui, é em homenagem ao geólogo Dr. Luis Cazau.
De uns 10 metros de comprimento e entre 3-4 toneladas de peso, pertence aos dicreossáuridos, e sua característica distintiva é a série de espinhas neurais cervicais extremamente alongadas e bifurcadas, possivelmente recobertas por uma estrutura córnea. Acredita-se que as utilizava para visualização, combate ou defesa.
Este achado ampliou o conhecimento sobre os saurópodes diplodocoides em Gondwana e mostrou uma diversidade morfológica notável. É um dos saurópodes mais singulares da Argentina e figura recorrente em estudos sobre função e evolução de estruturas dérmicas em dinossauros.
Eoraptor lunensis (1993)

Eoraptor foi descrito em 1993 por Sereno, Novas e colaboradores, a partir de um esqueleto quase completo encontrado em Ischigualasto, San Juan. Data do Carniano (Triássico Superior, ~231 Ma). Seu nome significa "o primeiro caçador do Vale da Lua".
Media aproximadamente 1 metro de comprimento e pesava 10 kg. Tinha crânio leve com dentes heterodôntes, ou seja tinha dentes de carnívoro e outros similares aos dos herbívoros, o que sugere uma dieta onívora.
É considerado um dos saurísquios mais primitivos conhecidos. Sua excelente preservação foi crucial para entender a anatomia basal dos dinossauros e os primeiros estágios de sua diversificação.
Argentinosaurus huinculensis (1993)

Descrito por Bonaparte e Coria em 1993, Argentinosaurus provém da Formação Huincul (Cenomaniano–Turoniano, Cretáceo Superior ~ 96 a 92 Ma) em Neuquén. Foi encontrado em 1987 por um estancieiro e escavado em 1989. Seu nome significa "réptil da Argentina de Plaza Huincul".
Embora o material seja incompleto (principalmente vértebras e ossos de membros), estima-se que superava os 30 metros de comprimento e várias dezenas de toneladas, sendo um dos animais terrestres maiores conhecidos.
A descrição de Argentinosaurus marcou um marco: consolidou a imagem da Patagônia como terra de gigantes e abriu um caminho de investigação sobre o gigantismo extremo em titanossauros, com comparações posteriores com Patagotitan e Dreadnoughtus.
Giganotosaurus carolinii (1995)

Descrito por Coria e Salgado em 1995, a partir de restos encontrados em 1993 pelo amador Rubén D. Carolini na Formação Candeleros (Cenomaniano, ~98 Ma) em Neuquén. O holótipo (MUCPv-Ch1) inclui grande parte do crânio, vértebras e elementos pós-cranianos. Seu nome provém do grego gigas, "gigante", notos que é "sul" e saurus "lagarto", ou seja "o lagarto gigante do sul". Seu nome específico é em reconhecimento ao amador que descobriu seus restos em 1993 Rubén Carolini.
Media uns 12–13 metros de comprimento, com um peso estimado em 8 toneladas. Seu crânio alcançava quase 1,8 metros, com dentes serrilhados adaptados a uma dieta carnívora. Pertencia aos carcarodontossáuridos, grupo de grandes terópodes de Gondwana.
A importância de Giganotosaurus reside em ter demonstrado que a América do Sul abrigava predadores de tamanho semelhante a Tyrannosaurus rex. Além disso, sua associação com restos de grandes saurópodes sugere seu papel como superpredador nos ecossistemas cretáceos da Patagônia.
Gasparinisaura cincosaltensis (1996)

Encontrado em 1992 perto de Cinco Saltos, Rio Negro; e descrito por Coria e Salgado, proveniente da Formação Anacleto (Neuquén) do Cretáceo Superior (~ 82 Ma). Seu nome está dedicado à paleontóloga argentina Zulma Brandoni de Gasparini, então significa "réptil de Gasparini de Cinco Saltos". O holótipo (MUCPv-208) consiste em um esqueleto parcial com um crânio completo.
Era um pequeno ornitópode bípede de 1,5 m de comprimento e 13 kg de peso. De cabeça arredondada apresentava órbitas oculares muito grandes dispostas em uma posição alta na cabeça. Com patas traseiras delgadas e membros anteriores gráceis. Este fóssil apresentava gastrólitos, que são pequenas pedras ingeridas voluntariamente pelo animal que o ajudavam na maceração de material vegetal, indicando sua adaptação à herbivoría.
Representa o primeiro ornitópode bem documentado da América do Sul. Seu achado ampliou o conhecimento sobre a distribuição de iguanodontianos em Gondwana e forneceu uma visão mais completa da diversidade ecológica do Cretáceo patagônico.
Megaraptor namunhuaiquii (1998)

Descrito por Novas a partir de restos da Formação Portezuelo (Turoniano - Coniaciano ~ 90 - 88 Ma) em Neuquén. O holótipo (MCF-PVPH 79) contava apenas com material fragmentário dos ossos dos membros. Inicialmente interpretado como um pé, depois se confirmou que sua garra gigante pertencia à mão ao encontrar um espécimen mais completo em 2004. O nome do gênero provém do grego mega, que é "grande" e do latim raptor, "ladrão", enquanto que o nome da espécie deriva do mapudungun namun, que é "pé" e huaiqui, "lança". Portanto, seria o "Ladrão gigante com lança no pé".
Alcançava 8–9 m de comprimento e ao redor de 1 tonelada de peso. Suas mãos eram alongadas com grandes garras em forma de foice o que faz dele uma característica única dentro dos grandes dinossauros carnívoros.
Pertence aos megaraptóridos, grupo singular de terópodes sul-americanos. Seu achado revelou uma linhagem própria de predadores em Gondwana, com adaptações diferentes a outros grupos de terópodes. Sua relação evolutiva exata com outros grupos continua sendo questão de debate.