Internet se formou como uma rede de computadores interconectados que permitia intercambiar informação entre usuários com certo grau de anonimato. Até entrada os 2000 buscava-se diferenciar tajantemente a identidade real vs a identidade digital. Na maioria dos casos, não havia coincidência entre uma e outra. Com a expansão da web 2.0, aquela construção foi ficando muito para trás e o anonimato se foi diluindo entre contas de trolls estatais e bots publicitários: o culto à identidade reemplacou o @ sem nome que surfava o ciberespaço.
Na medida que os smartphones e as redes sociais foram infectando o tecido social, a ideia do anonimato na rede foi mudando drasticamente. Para que ser um aleatório da Internet? O ecossistema das grandes tecnológicas impôs uma forma de habitar o ciberespaço diretamente associada à exposição total de nossas vidas com um simples fim: recolher informação de seus usuários e ver como vendê-la. Não importa se os compradores são empresas, estados, agências de marketing ou publicitários políticos. Os fins são os mesmos: coagir os usuários ou manipular comportamentos e pensamentos.
Por algo a OTAN não só declarou o ciberespaço como o quinto domínio da guerra em 2016, como também em 2020 determinou que o sexto domínio da guerra é o cognitivo. O ciberespaço, controlado por um punhado de corporações tecnológicas, é o campo de batalha onde se desdobram as operações cognitivas atuais. O anonimato é uma forma de resistência ante a parametrização e o extrativismo dos oligarcas do dado, dos quais estados e organizações non sanctas se nutrem para seus próprios fins.

Nem todo que busca o anonimato é um troll
Está bastante estudado que manter-se anônimo é um benefício para a liberdade de expressão, e não só em ambientes digitales mas também na vida real. Desde os folhetins contra os absolutismos monárquicos, passando pela propaganda clandestina anarquista a princípios do século XX ou as organizações guerrilheiras nos '70, tornar-se anônimo sempre foi uma ferramenta de resistência e de luta. Inclusive podemos trazer facilmente isto à atualidade, com a vida cotidiana completamente cercada de sistemas de videovigilância: desde as câmeras que os estados colocam para vigiar, passando por câmeras em edifícios, lojas, casas, bairros. Ou, pior ainda, esses micro-assaltos à privacidade produto de fotos ou vídeos que um cara com celular te pode tirar enquanto lês um livro, caminhas fumando um ou simplesmente existis. A vigilância está presente em todos os lados e é exercida impunemente por todos.
O culto à identidade que se dá na atualidade, explorado até a exaustão em formato de vírus-memético-multimídia, é até agora o maior estádio que tem alcançado o extrativismo tecnológico. A IA só está mostrando o próximo passo desta guerra cognitiva alimentada à base de nossas identidades. A contracara disto não é o ascetismo e o retorno à caverna mas mais bem a luta pela soberania cognitiva. Nessa briga, o anonimato é uma das formas de batalhar.
A possibilidade de não se nomear, e de diferenciar a identidade real de nosso avatar no ciberespaço, nos permite habitar distintas identidades ao mesmo tempo, onde ser troll, ser ninguém ou ser você é igualmente possível. Tudo aponta a unificar o eu real com o virtual, com o fim único de seguir parametrizando pessoas através do ciberespaço, que opera bidirecionalmente, levando e trazendo consumos, desejos e dados da vida real à autopista digital, com uma conexão direta e sem pedágio para nossas mentes. Quanto mais coincida nossa identidade real com a identidade digital, mais fácil é realizar essa conexão... e mais nociva é.
Como contracara disto, temos de exemplo as primeiras comunidades da rede que se formaram mediante a diferenciação da vida real vs o @ da Internet. O anonimato brindava a possibilidade de construir distintas identidades de acordo com o espaço que se habitava: não era o mesmo soldão do fórum de Age of Empire II Hispano que o soldão do fórum de Lovecraft ou do fórum sobre Anarquismo. Ao construir distintos @ de maneira consciente diluímos nossos rastros na megalópole da rede: não nos atamos a uma identidade senão que pivotamos entre várias, tal como se fossem Zonas Temporariamente Autônomas.
Não se regale: anonimato como forma de defesa e resistência
O ciberespaço é uma megalópole infinita e o anonimato é o fundamento dessa city. Mas como toda cidade, muda com o tempo, e assim como os sistemas de vigilância e de reconhecimento facial se instalaram nas grandes urbes, os habitats digitais mutaram em espaços de exploração de dados pessoais e vida privada, pelo que a opção mais sensata é buscar anonimizar-se. A princípios dos 2000, ser anônimo era uma obviedade. Hoje, quase uma exceção ou diretamente uma prática mal vista devido à enorme proliferação de trolls, bots e contas fakes que se dedicam a atacar, perseguir e assediar usuários. Infelizmente para o discurso comum, o anonimato na rede é quase sinal de criminalidade e não uma busca pessoal por não querer se expor: o ciberespaço é outro plano de nossa realidade e habitá-lo com outra identidade é uma necessidade imperiosa nesta época.
Precisamente, hace unas semanas houve uma mudança nas normativas de ciberpatrulhamento do Ministério de Segurança: habilitam-se as figuras de agentes encobertos digitais, uma prática que sabíamos que existia mas agora se blanqueia. Não só podemos ser atacados e perseguidos por forças para-estatais no formato de trolls ou bots, senão que também o braço digital da lei pode cair sobre qualquer cidadão, sem contar todos os nexos que se realizam entre o ciberespaço e o territorial: sistemas de reconhecimento facial, torres de telefonia que rastreiam a posição de nossos telefones, câmeras fiscais, de placas, leitores biométricos, etc.

Nestes momentos pontuais da Argentina, resulta chave não se entregar completamente e tomar certos cuidados. Problematizar essas questões está longe de cair na paranoia. Não é preciso procurar muito para encontrar algum ataque digital em bando ou um doxxing que tenha chegado a ultrapassar a vida digital para cair em ataques in real life. Ante essa problemática, que é real e concreta, nos resta construir um anonimato com ferramentas que nos permitam ao menos colocar algumas barreiras para evitar ficar tão desprotegidos ante a quantidade de ataques que vêm acontecendo.
A construção dessa identidade pode variar de acordo com nossas necessidades. É claro que as pessoas que se expõem publicamente (jornalistas, comunicadores, famosos, militantes políticos, influenciadores e outros) não podem se dar ao luxo de se anonimizar: sua vida depende da exposição. Mas o resto dos mortais, precisam continuar reforçando essa conexão artificial entre o eu real e o eu virtual? O ecossistema dos oligarcas dos dados está tão finamente organizado à base de likes e compartilhamentos que sempre gera uma falsa sensação de estar prestes a "bombar" com algum post que se viralizar ao infinito, a custo de interagir, nos expormos, nos mostrarmos. Depois vem o troco, que se paga com ansiedade social, insegurança, apatia, vazamentos e ataques mais ou menos direcionados.
Mudar o software cognitivo
Há um conceito chave da cibersegurança e da ciberdefesa que consiste em pensar um modelo de ameaça. Grosso modo, isso consiste em colocar quais possíveis ameaças e vulnerabilidades têm nossos sistemas informáticos e como podemos ir um passo à frente para não nos entregarmos ante atacantes. Isso pode ser aplicado a muitos aspectos da vida cotidiana e precisamente na hora de construir anonimato nos serve como parâmetro para pensar. Quão anônimo posso ser? Quanto posso separar meu eu real do virtual? Preciso ou não me tornar anônimo? Que esforço posso fazer em prol disso?
As perguntas são milhares, e quanto mais nos fizermos melhor porque o primeiro passo é romper a apatia generalizada em torno dessas questões. Questionar o status quo sempre é um sintoma de independência mental e neste caso não é a exceção. Partamos da base de que todos somos rastreáveis em maior ou menor medida: assim que conectamos nosso celular a uma rede de dados ou nos ligamos a algum wifi, estamos deixando pegadas. Cultivar a rastreabilidade total, tentando ter todos os cuidados possíveis para não fornecer dados a ninguém, é uma tarefa quase titânica e impossível. A conexão implica um rastreamento, em maior ou menor medida.
Para o comum dos internautas, com pequenas ações conseguimos despistar tanto aos rastreadores compulsivos quanto a trolls estatais e agentes digitais. Em primeiro lugar, é preciso tentar evitar usar nomes que nos vinculem à nossa identidade real. Voltar aos velhos e confiáveis nicknames, sem fotos reais nem datas de aniversário nem nada; na medida do possível, eventualmente rotar os @ que usamos. Simultaneamente, por mais que nos pese, evitar continuar colocando a carinha em cada post e até ser aqueles chatos que não querem que se suba tal ou qual foto: a privacidade é um direito e como tal devemos exercê-lo, seja para dizer aos nossos amigos que não façam upload de nossas fotos no Instagram, como para frear a qualquer um que nos tire uma foto na via pública de jeito. Devemos pensar em nossa identidade como uma filha digna da sociedade líquida: nosso eu digital deve ser um fluido que se mistura com a maremoto da rede.
Evitar se somar constantemente a quantas discussões, "trends", hashtags ou psyops das redes sociais dos tecnocratas dos dados é elementar para cultivar o anonimato. A maior parte desses movimentos em redes está orquestrada para continuar capturando bytes em massa. A história recente está repleta de exemplos: desde os apps que nos faziam velhos e depois alimentaram os sistemas de reconhecimento facial, passando por se um vestido é de tal ou qual cor. Na guerra cognitiva, nada está librado ao acaso e nada é coincidência. Não existe uma sensação de paranoia, porque a menos que sejas um alvo preciso ninguém te está seguindo pontualmente, mas sim te estão seguindo como parte de um pool de identidades reais aos quais há que parametrizar. Evitá-lo é resistir, e agir em consonância é infectar esse pool de dados. As ações anteriores consistem basicamente em mudar hábitos, modificar nosso software mental.
Justamente, mudar nossos padrões de consumo e uso da rede é o ABC de cultivar a dissociação entre a identidade real e a digital. Não depende de ser mais ou menos hacker, mas basicamente de não ser mais um da multidão que se orgulha em dizer "não me importa se me rastreiam, não tenho nada a ocultar". Ou, pior ainda, "eu de tecnologia não entendo nada". A apatia generalizada ante essas questões é o maior inimigo que temos e o ostracismo digital é o que devemos vencer a todo custo.

O canivete suíço do anonimato
Passado o estágio de mudança de software mental, resta começar com ações mais concretas, em torno da utilização de ferramentas digitais que nos ajudem a resguardar a privacidade. Navegar a web utilizando Chrome nem sequer pode ser considerado: tudo o que o navegador faz é registrado, processado e utilizado pela Alphabet. Nos vai vir procurar um promotor da nação porque leu nossos emails? Não, não há que ser tão tolo para cair nisso, mas também não para dar tudo para Google. Empresa que além disso faz tudo o possível para que seja impossível navegar Internet sem bloqueadores, precisamente uma ferramenta chave para cultivar o anonimato sem demasiados esforços.
O navegador web é uma ferramenta muito poderosa, já que praticamente tudo fazemos de lá. Mas quem passa mais tempo no celular é provável que utilize mais os apps de mensageria e redes sociais que o web browser. Como mencionamos antes, deixar as redes geralmente não é uma opção mas deixá-las do celular sim. E, se não for possível, existem apps como TrackerControl, desenvolvido pela Universidade de Oxford, que analisa, reporta e bloqueia os vazamentos de dados que geram os aplicativos.
Contramão dos apps sociais das grandes corporações, existem redes livres, comunitárias e autogestionadas onde o culto à identidade não existe. São redes sociais open source, como Mastodon, a rede de microblogging (como costumava ser o twitter) mais conhecida. Cybercirujas administra o servidor Rebel.ar e acaba de incorporar uma instância de Pixelfed, um "emulador" do Instagram, sob o domínio pixel.rebel.ar. Os ecossistemas de redes livres estão pensados para respeitar a privacidade e a identidade de quem quer habitá-los. Querés ser uma pessoa pública do ciberespaço? Sem problema. Querés ser um anônimo total? Zero drama. Querés ser um troll insuportável? Sem problema, campeão, mas aguenta os bans.
Se queremos ir um passo além, e realmente começar a pensar em não deixar rastros na rede, temos a opção de utilizar uma VPN (Virtual Private Network). Quando nos conectamos à Internet, seja em nosso PC ou celular, o fazemos através de um ISP (Internet Service Provider) que nos atribui um endereço de IP, um número que pode ser identificado e mais ou menos ser geolocalizado com certa facilidade. Quando usamos uma VPN nos conectamos a um túnel fechado, nosso IP e localização mudam, e nem o ISP nem algum atacante podem analisar o tráfego da rede. Geralmente as VPNs se pagam e há dezenas que oferecem o serviço, mas há que saber a quem pagar.
Protonmail é uma empresa com base na Suíça que oferece o serviço básico de VPN gratuito, junto com seu email. Se não nos agradam tanto as empresas desse estilo, Riseup.net é uma histórica comunidade de hacktivistas anarquistas que também oferece serviços de email e VPN gratuita. Mas de nada nos servem todas essas ações se depois vamos usar um sistema operacional com suas configurações padrão, e com isso me refiro a Windows ou Mac OS. Em sua instalação padrão, o sistema da Micro$oft compartilha desde as senhas que guardemos no sistema até metadados do disco rígido: se não puder mudar de sistema, ao menos ser suficientemente esperto para mexer nele para não dar toda a informação sem piscar.

Finalmente, não devemos descuidar a vida real. Como dissemos, as ruas estão cheias de sistemas de vigilância de todo tipo: desde reconhecimento facial até pessoas, sem esquecer aqueles deliciosos WiFis abertos que atuam como honey pots para desavisados. Cada vez que nos conectamos a um WiFi estamos deixando outra marca, e a situação não está como para andar mostrando todos os passos. Nas grandes cidades, os domos de vigilância povoam todas as esquinas e um bom exercício mental é ir vendo onde há câmeras e onde não. Nem falar se moram na city portenha, onde se manifestar com o rosto descoberto parece ser uma romantização de "não oculto nada", quando mais bem é se entregar à videovigilância das forças de segurança: o encapuzado não necessariamente é um serviço mas alguém que sabe quem é o inimigo que está na frente.
A síntese anônima
Definitivamente, habitar o ciberespaço, tão enganchado na cotidianidade real, se transformou em uma tarefa completamente laboriosa: entre o spam, os trolls, a polícia, os bots, scams e tantas porqueiras soltas, resulta muito difícil se mover pela rua online sem receber alguma balubarda, até mesmo do mundo real. Sobretudo porque os tiros estão muito bem direcionados, e por tiros me refiro a qualquer coisa: um ataque de trolls, publicidades, consumos, detenções arbitrárias, qualquer coisa que prolifere na rede ou no território tentará chegar até nós graças a algoritmos de extração que localizaram nossos padrões.
Separar a identidade real da digital é uma necessidade imperante para o comum das pessoas. Não é uma tarefa simples de levar, já que após anos de hegemonia dos oligarcas dos dados tudo está feito para que coloquemos a cara e a nuca em cada movimento digital que façamos. Os últimos acontecimentos e a degradação de todo o conteúdo da Internet deve deixar de ser um mero senso de alerta para se transformar em uma necessidade de agir.