O mundo dos drones FPV me agrada porque tem uma quantidade de empresas de nicho fazendo hardware, tecnologia digital e analógica, um componente audiovisual, coisas que voam, lugares abandonados, pode ser feito ouvindo música e tem uma veia artística. Há mais de um ano, no episódio #180 de Círculo Vicioso vimos um clipe de um drone FPV em um lugar abandonado, se movendo em alta velocidade de forma ultra técnica e meticulosa, e fiquei completamente louco. Me mergulhou por completo em um novo rabbit hole cheio de componentes que vinha procurando há muito tempo em outros lugares, e em um nível que não me acontecia há muitos anos com nada.
Não foi a primeira vez que via ou ouvia sobre drones, mas foi a primeira vez que comecei a entendê-los. FPV significa First Person View ou visão em primeira pessoa. E para mim tudo passa um pouco por aí: a possibilidade de sentir que você está voando não tem preço. Sentir que você está no modo espectador do Counter-Strike 1.6 mas da vida real. Com um tiny whoop (os drones mais pequenos) é o mais próximo que você pode viver de ser uma mosca vagando pelo ar, passando por espaços ínfimos. Mas para conseguir isso primeiro você tem que adquirir certo nível de controle e técnica para incorporar os movimentos do rádio (o "joystick") e naturalizá-los. Quando você faz isso, é como uma espécie de avatar, uma extensão do seu corpo. Você fica quieto, mas está em outro lugar observando e interagindo com o mundo real. Que loucura.
Tinha começado a escrever algo sobre isso há um ano, antecipando muitas das coisas que aconteceram na guerra da Ucrânia com os drones e como mudaram todo o metajogo da guerra. Mas, sinceramente, não sobra muito a dizer. Ou melhor dito há muito a dizer, mas agora me interessa mais a parte artística deste mundo, então vamos para ela.

Alguns conceitos básicos
Primeiro, diferenciemos alguns termos e vejamos o panorama geral. Tecnicamente, um drone é qualquer veículo aéreo não tripulado (VANT ou UAV, sigla em inglês para "unmanned aerial vehicle"). Mas atualmente se popularizou muito o quadricóptero ou quadcopter, aos quais se costuma abreviar como "quads". Esses são os drones que costumamos ver em situações normais.
Agora, para usar um drone FPV precisamos da própria nave (com todas as suas partes), bateria, rádio (o "joystick") e óculos ou goggles. O drone tem antenas que transmitem (TX) os sinais de rádio de vídeo para os goggles e também recebe (RX) os sinais do rádio para os movimentos. Tipicamente, a frequência de controle do rádio é usada em 2.4 GHz, e a de vídeo em 5.8 GHz (sim, as mesmas do WiFi). Não é necessário saber nada disso para pilotar um drone, mas dados são dados.
Depois, dentro do que é a transmissão de vídeo há duas categorias importantes a diferenciar: analógica e digital. Os drones analógicos em princípio são mais baratos, usam uma tecnologia aberta não proprietária, têm latência ultra baixa, maior alcance de distância e costumam ser mais leves, embora a imagem pareça a de uma televisão velha com antena, com qualidade SD e ruído estático. Costuma ser ideal para ter a maior precisão e rapidez possível (pela baixa latência) e também porque o ruído na imagem dá indicações da qualidade do sinal. Para compensar, muita gente usa drones analógicos mas monta uma GoPro em cima para ter como resultado uma imagem HD, além do vídeo analógico do voo.
Os drones digitais, por outro lado, são mais caros, usam tecnologia proprietária, a latência é mais alta que em analógico (embora dependendo qual sistema digital se use, alguns têm mais ou menos), menor alcance de distância, são um pouco mais pesados e a imagem pode chegar a ser HD, alta definição. Costuma ser ideal para fazer vídeos de maior qualidade visual sem exigir tanta precisão ou rapidez. Nesta categoria de sistemas digitais, os mais conhecidos são DJI, HDZero e Walksnail.
Dito isso, os sistemas digitais estão cada vez melhores e o alcance também depende muito das antenas que se usem. Também surgiu recentemente um sistema digital de código aberto chamado OpenIPC, que promete muito já que poderia baixar muito os preços dos sistemas digitais e expandir a quantidade de empresas que possam oferecê-lo.

O mundo dos drones comerciais pode ser organizado, em grandes linhas, entre drones de foto/vídeo e drones FPV. Na primeira categoria se encontram os da DJI, a marca de drones mais importante e conhecida do mundo de longe. São drones com voo assistido, que se movem de forma mais controlada e lenta, e são ideais para gravar planos cinemáticos mais amplos ou tirar fotos de cima. Também nesta categoria entram os drones que se usam no mundo agrícola, que são pouco modificáveis e de sistemas fechados, mas aptos para qualquer consumidor final.
E depois estão os drones FPV. Esses se pilotam de forma completamente manual, então têm certa curva de aprendizado, que geralmente se inicia em simuladores em PC. São altamente modificáveis, super rápidos e ágeis, e podem ser montados com um orçamento mais baixo.
Quanto a tamanhos, há muitos mas digamos que os mais comuns são três: o tiny whoop, os de 3 polegadas e os de 5 polegadas. Conforme ouvi, uma vez que você sabe pilotar um tiny whoop, a experiência é bastante transferível para drones maiores. Para mim, particularmente, por enquanto os que mais me interessam são os tiny whoops por várias coisas: quero poder voar em qualquer lugar, que seja o mais "stealth" possível sem que ninguém note, ter aquela visão de mosca voadora – ou sentir que você está no mapa de_rats do CS 1.6 –, e além disso não quero machucar ninguém se eventualmente eu cometer um erro e bater em alguém. Os tiny whoops são extremamente leves, pesam cerca de 30 gramas com bateria e tudo.
O glossário da movida: guerrilla whoop, bandos e truques
Há milhares de vídeos de drones fazendo planos espetaculares e cinemáticos de paisagens incríveis, cidades de cima e mais, tudo em ultra HD lindo. São excelentes planos para usar como recurso de B-roll em algum filme ou publicidade. Mas entediam. Não acontece nada em particular aí, além de o impressionante de uma tomada aérea. Em paralelo e em contraste com este mundo dos drones, há outra movida com mais AURA.
O guerrilla whoop consiste em voar um drone em um lugar geralmente público e sem permissão de ninguém, em algum lugar interessante, tentando fazer truques ou simplesmente passeando, às vezes enchendo um pouco o saco de alguém. Um dos melhores nisso é FPV Vegan, um cara que vive em Nova York e voa principalmente tiny whoops analógicos em lugares aleatórios da cidade. Faz vídeos e posta no YouTube e Instagram. O que me gusta deste tipo é que mistura seus vídeos com gravações dele mesmo voando, às vezes sozinho ou com alguém mais, e podem ir vendo as coisas que usa e os lugares da cidade por onde se move. Seu nível de controle e precisão para pilotar drones é impressionante, fruto de anos de prática.
O cara se move por toda a cidade e em qualquer bom spot que vê, voa o drone. Faz isso na rua, em shoppings, pontes. No vídeo aqui em cima está voando um drone com um baseado pelo parque, se aproximando das pessoas para ver se conseguem pegar. Também pode aparecer zoando um pouco em uma lavanderia, importunando um pouco o dono. Ou subindo o Empire State com um tiny whoop de 65mm e metendo um dive.
Tem uma movida enorme de gente que faz isso em diferentes lugares. A forma mais fácil de encontrá-los é buscando quem tem FPV no nome. Nem todos levam, mas a grande maioria pelo menos tem na bio. Por exemplo, Baboo.fpv, que aqui está abrindo a porta de um mercadinho com o drone e entrando.
E para meter um pouco de ego, aqui embaixo estou eu voando em um estaleiro em Mar del Plata. Embora não chegue nem de perto à qualidade dos pilotos anteriores, já o fato de poder ver minha própria cidade da perspectiva de um drone analógico é, por enquanto, mais que suficiente para meu prazer.
Por outro lado, há youtubers de FPV que fazem vídeos mais estilo "conteúdo", onde mostram diferentes coisas. Um deles é BotGrinder, um fissurado total obcecado com os drones que se mostra vagando por lugares e falando de coisas de FPV, e que fez por exemplo este vídeo sobre as regras implícitas ou a etiqueta do guerrilla whoop.
E depois também está a movida de voar em lugares abandonados, mais conhecidos como bandos. Nesta categoria, a maioria costuma se focar mais no freestyle, que consiste em meter truques complexos de diversos movimentos com o drone, em lugares complicados. O interessante também é que se costuma mostrar, em paralelo ao voo, um plano do rádio para ver como se fazem os movimentos. É uma loucura ver o nível de precisão que se maneja. Um craque absoluto disso é nils.vo.
Muito disso facilmente ressoa com o mundo do skate, pelas razões óbvias: rua, habilidade técnica, entrar em lugares sem permissão ou abandonados, fazer truques, fazer vídeos, se juntar em lugares com outros que fazem o mesmo, e etc. Tanto é assim que um cara montou uma biblioteca de truques onde mostra com gifs todos os existentes e como se faz cada um. À página colocou o nome Tyrantt's Pro Whooper em clara alusão ao Tony Hawk's Pro Skater, copiando o logo e tudo.
À medida que surgem truques, a comunidade FPV lhes coloca nomes e alguns ficam. Existe além disso uma revista tipo Thrasher, que está muito legal e se chama Fly Tribe Magazine. E também uma competição, o IGOW (International Game of Whoop), que já tem cinco anos, onde cada semana se apresenta um desafio diferente até completar as quatro letras da palavra IGOW. É internacional porque gente do mundo todo compartilha vídeos dos desafios e depois são julgados em uma transmissão ao vivo. Há prêmios com bastante dinheiro envolvido, e na página oficial do IGOW diz expressamente que querem allanar o caminho para que a categoria de FPV freestyle seja considerada um esporte legítimo, um objetivo interessante para acompanhar de perto.
coto whooping 🛒
— PabloW (@pablowfpv) July 27, 2025
BETAFPV Meteor65 Pro
Skyzone SKY04X PRO
RadioMaster Pocket pic.twitter.com/5RaLFq1sh5
Antes de tudo isso, anos atrás a comunidade de drones FPV estava classicamente formada por um perfil muito mais técnico, clássicos gordos hardware focados no hobby do radiocontrole não somente para quads, mas também por exemplo de pequenos aviões de asa fixa que são ideais para voar muito mais longe. A tecnologia é a mesma, o protocolo mais usado hoje em dia para transmissão de radiocontrole é ExpressLRS (código aberto), e alguns anos atrás foi FrSky. Muitos desses gordos capos do radiocontrole podem ser encontrados no fórum de IntoFPV, onde respondem constantemente dúvidas aos mais novatos e discutem também coisas de calibre mais alto.
Um dos mundos que manejam esses gordos é o subgênero do Long Range ou longo alcance, o que se refere a voos de grandes distâncias. Uma história divertida é a de um australiano que quis bater o recorde de maior distância feita com um voo usando este protocolo de ExpressLRS, que tem diretamente uma tabela de líderes em sua página para competir por quem faz o voo mais longo. O cara conseguiu fazer 101,3 quilômetros, que é mais do dobro do máximo anterior de 43 km. Uma loucura absoluta. Subiu um vídeo mostrando o voo e explicando em detalhe como conseguiram. Pouco tempo depois lhe cobram uma multa de 2.750 dólares australianos (uns 1.800 USD) e o obrigam a remover o vídeo do YouTube. A comunidade de FPV juntou a grana em minutos e conseguiu pagá-la sem maior problema. Pouco depois, outro canal reupou o vídeo original aqui. Tudo isso foi, é claro, discutido no fórum: aqui e aqui.
É difícil deixar de mencionar também a Joshua Bardwell, fonte inesgotável de recursos de aprendizagem. Qualquer pergunta ou dúvida que tenha sobre drones FPV, já foi provavelmente falada ou discutida em seu canal do YouTube. Outro imprescindível é a página de Oscar Liang, um glossário de absolutamente TUDO relacionado a drones FPV
Enfim, a movida dos drones existe há tempos, mas ao mesmo tempo está apenas começando. Como toda tecnologia em grande parte impulsionada pela guerra, seguramente nos dará grandes alegrias e também problemas que hoje nem nos imaginamos, então acho que vale a pena acompanhá-la de perto.

Guia de compra de drones FPV para todos os bolsos
O melhor para começar é comprar um controle remoto barato e bom como o RadioMaster Pocket –o que eu uso–. Pode ser encontrado na Amazon (um pouco mais caro, mas chega rápido) ou no Aliexpress (demora um pouco mais, mas chega e sai mais barato).
Uma vez que tenhamos o controle remoto, o melhor é praticar em um simulador de drone. Os mais conhecidos são Velocidrone, Liftoff, Uncrashed e alguns outros. O primeiro é comprado no site deles, e os outros dois na Steam. Desses, o que mais gosto é Velocidrone, que também tem versão mobile. Além disso, os que fazem racing gostam muito, então acho que é mais "realista" (nenhum é totalmente, mas não importa tanto). Se não quiser pagar por um simulador, há um grátis na Steam, FPV SkyDive. E se não tem computador, há um para celular grátis no Android, FeelFPV.
Já com essa combinação de controle remoto + simulador podemos praticar por muitas horas até sentir que temos uma noção básica de como pilota um drone. O mais recomendável é seguir algum tutorial para aprender o básico, como o de Joshua Bardwell, que é muito bom. Não é necessário completar tudo, mas fazer os primeiros vídeos da série para iniciantes é extremamente útil para ter um bom começo.

Apenas tendo dominado essa etapa podemos começar a pensar no primeiro drone e no primeiro óculos/goggle. O primeiro drone poderia ser o BETAFPV Air65 ou o BETAFPV Meteor65 Pro. É pequeno, ágil, barato e um dos melhores no mercado de tiny drones. O segundo é um pouco menos ágil, mas mais resistente, vem com um par de baterias e um carregador (meio fraco).
Sobre o goggle, minha filosofia foi a de buy once cry once, referindo-me a gastar uma boa grana no início, chorar uma vez e pronto. O goggle pode durar para sempre, então se você se interessa em continuar no tema a longo prazo, vale a pena investir em um bom. Mas também há opções baratas como o Eachine EV800D (a versão com 2 antenas, Diversity) que costuma ser uma das opções low cost mais recomendadas. Mas cuidado com os clones que há muito produto falsificado. E outro um pouco mais caro, mas ainda "econômico", o Skyzone Cobra. Como notarão, os mais baratos têm esse formato de caixa mais grande.
E se você quer gastar muito em algo mais profissional, o Skyzone Sky04x Pro ou sua variante um pouco mais barata, o Sky04O Pro. Outra opção na categoria cara é o HDZero Goggle 2, que embora seja para um sistema digital, também traz integrado o analógico, o que o torna uma opção interessante.
Finalmente, para baterias, as Tattu 300mAh 3.8V HV 75C, que vêm em pacotes de 5. E como carregador de baterias 1S (1 célula), o VIFLY WhoopStor 3, que tem opção para fazer carga de armazenamento, algo necessário se quisermos que as baterias durem.