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O que é e como funciona a Small Web, uma trincheira de combate digital

Em algum link que já não encontro tinha lido que, por volta da primeira década de 2000, cada internauta visitava em média cerca de 80 sites web por mês, enquanto que após 2015 esse número caiu para um punhado de páginas. Essa situação irreproducível –mas que espero que me acreditem– tem um grande fundamento real que se vê expresso na popularização e massificação do ecossistema de smartphones e aplicações mobile. Antes deles, a Internet ainda era vivenciada através de sites pessoais de todo tipo, blogs, portais, fóruns de download, comunidades de chat e uma quantidade fabulosa de interações digitais que não estavam completamente mediadas por três ou quatro super corporações tecnológicas.

Mas os sites web são apenas uma parte do universo do ciberespaço. Dentro da Internet existem distintos protocolos de comunicação de dados, que basicamente são os que permitem que as aplicações se comuniquem entre si, desde que cumpram os requisitos. São desenvolvidos pela Internet Engineering Task Force, uma organização global que valida e promove os protocolos e padrões da Internet. Qual é a vantagem de usá-los? Qualquer um que possa desenvolver algum app pode utilizá-los para sua aplicação. Assim, por exemplo, temos uma dezena de navegadores web que utilizam os protocolos HTTP/HTTPS.

Por que não temos vários clientes de Twitter ou Instagram? Porque não utilizam nenhum padrão. A desvantagem é enorme, pois os ecossistemas fechados impõem suas formas de uso, enquanto que os padrões não. Por exemplo, embora existam três ou quatro navegadores populares, também há uma dezena mais pensados para máquinas menos potentes ou conexões à internet mais instáveis. A mesma situação acontece com o email. Embora nos acostumemos a usá-lo via web app, como é um protocolo, simplesmente podemos baixar um cliente de correio para consultar os emails.

Uma alternativa à Internet atual

Hoje a maior parte do consumo de Internet se dá através de plataformas gerenciadas por oligarcas da computação. Meta, Alphabet, Amazon, Microsoft e tantas outras levam quase todo o tráfego web, então são elas que decidem como tudo deve ser gerenciado em seus ecossistemas: desde quais apps e sistemas são compatíveis com essas redes até como se monetiza o tráfego que circula lá.

Em um mundo largamente degradado, distante dos padrões da Internet, o acesso à rede é desde hostil até obviamente proibitivo, porque predominam os acessos através de dispositivos móveis totalmente descartáveis e projetados para você se perder em scrolls. Diante desse ecossistema segue existindo a velha e confiável Internet, feita por pessoas, grupos e comunidades que preferem levar uma vida digital gerenciada por elas mesmas e não pelos ditames das corporações.

Desde a década de 2010, as páginas web foram se transformando em desenvolvimentos cada vez mais pesados: se na década anterior os sites pesavam menos de 1MB, hoje segundo o último relatório de The State of The Web chegam a uma média de 2.9MB, quase o triplo. Isso explica –às vezes– essa sensação de que os sites demoram muito para carregar: não é apenas sua conexão tercermundista mas tudo é excessivamente pesado.

Esse crescimento em tamanho se deve fundamentalmente a uma mudança de paradigma. Na era dos dados, é necessário rastrear tudo, e isso é feito através de scripts de todo tipo, fundamentalmente de JavaScript, usados majoritariamente para analisar o tráfego em seu sentido amplo. Todos os grandes sites de notícias, redes sociais, plataformas de streaming, portais de e-commerce e a maior parte das URLs que você visita estão codificados dessa maneira, amigável para quem coleta toda essa informação mas nefasta para o cibernauta, já que em grande parte dos casos reside em sites tremendamente mal otimizados.

Mas a web é um campo muito vasto e, embora seja verdade que a maior parte do tráfego é gerada nas redes dos oligarcas da computação, a contracultura sempre existiu, ainda mais na Internet. Contramão dessa forma de consumir a Web, existem várias ideias e manifestos sobre a small web ou smol web (como preferir). A expressão se explica sozinha: uma Web feita de forma eficiente, amigável com o internauta e acessível para todos os equipos, já que não apenas se requerem grandes conexões para acessar alguns sites mas além disso muito do que é consumido é carregado no cliente, o que significa maior necessidade de processamento de computação.

Cápsulas Gemini e buracos Gopher e sistemas UNIX

Quando falamos da "Web Pequena", popularmente conhecida como smolweb, não nos referimos especificamente ao protocolo WWW mas sim a uma forma de acessar o conteúdo da Internet através das distintas portas que nos oferece. Um dos novos protocolos é o denominado Gemini, similar a HTTP. Através de distintos clientes (entre os quais recomendo Lagrange tanto no celular como no desktop), podemos nos conectar a cápsulas Gemini, que são espaços em modo texto mas que permitem o carregamento de imagens.

Todos os bytes lá enviados estão em seu estado puro, não há scripts nem trackers e não existe o conceito de bloqueador de anúncios porque não há nada para bloquear. Embora seja uma comunidade pequena, cada vez mais usuários hispanos vão criando a cápsula gemi.dev. Lá, seu criador desenvolveu uma "aplicação" interessante. News Waffle nos permite adicionar portais de notícias ou webs e carregar seu conteúdo em Gemini, para desfrutar uma leitura sem distrações, sem spam, nada. Isso sem esquecer que, ao carregar uma web dessa maneira, o tamanho do site transformado se reduz em 90%.

Diferente de Gemini e tão antigo quanto a WWW é Gopher, que em vez de cápsulas possui buracos. Nascido em 1991, ficou quase morto na competição contra o HTTP, mas na Internet nada morre completamente. Sendo um protocolo que simplesmente oferece conteúdo em formato ASCII em 80 colunas, sempre foi um fetiche dos amantes do terminal. Com a popularização do Linux e a apropriação do terminal como uma ferramenta crucial de comunicação, voltaram lentamente a proliferar algumas comunidades surgidas nos primórdios da computação: os pubnix ou UNIX públicos.

UNIX é um dos sistemas operacionais mais transcendentais da história, e dele derivam Linux e suas distribuições mas também os sistemas da Apple. Durante os anos '80, todos os grandes computadores utilizavam alguma variante de UNIX e os usuários o utilizavam em formato de terminal de comandos. Muitas comunidades científicas e estudantis, mas também de temática geral, se conectavam a computadores com UNIX e distintos programas que lhes permitiam interagir entre si.

Hoje existe um movimento denominado "tilde-verse" que basicamente são computadores com algum UNIX (um Linux ou BSD) aos quais você pode solicitar um usuário para se conectar via terminal e fazer parte de uma pequena comunidade onde há fóruns, chats, arquivos, jogos, buracos Gopher, cápsulas Gemini e mais, tudo em modo texto, para interagir com pessoas e majoritariamente à moda antiga: de computador a computador, sem mais intermediários que um ISP.

Dentro desse universo de UNIX públicos, texto-plano.xyz é o único servidor hispano. Dispõe de muitos serviços e conteúdos gerados de forma comunitária, tais como seu podcast e uma revista que é publicada tanto em Gopher e Gemini como em HTTP. Mas claro, em puro texto plano.

A web simples

Mas se você quer se centrar exclusivamente no protocolo HTTPS e não se esconder nesses recônditos, não se preocupe. Tanto Gopher como Gemini podem ser configurados em proxies que saem para a Web. Tal é o caso de gopher.tildeverse.org, um proxy que recopila dezenas de buracos Gopher para consultar desde nosso navegador. Mas além disso, também existe um movimento para recuperar os sites pequenos e acessíveis. Como muitos deles escapam do radar do Google e dos buscadores, trata-se mais bem de um boca em boca, como nos primeiros anos da Internet.

Existem três clubes muito interessantes, com nomes muito claros: 1MB Club, 512KB Club e 250KB Club. Lá são compilados um monte de sites simples que pesam muito pouco, que são mantidos por quem os monta e que, assim como nos primeiros tempos da Web, nos convidam a navegar pelo diretório e descobrir o que há em cada uma dessas URLs tão simpáticas. Juro que há de tudo: páginas de devs, artistas aleatórios, blogueiros à moda antiga, compiladores de vários links...

Dentro da comunidade hispanohablante, existe uma compilação de blogs chamada ¡blog!¡blog!, que até o momento conta com cerca de 80 sites compilados, todos em espanhol e catalogados segundo temática. Assim como 421.news, também possui um serviço de RSS; isto é, você pode se inscrever com um leitor de RSS para receber as atualizações do site sem ter que entrar no navegador.

Como sempre acontece com essas coisas, entrar em um blog também significa ir navegando pelos links que são compartilhados: essa era a potência da WWW, poder ir saltando de hiperlink em hiperlink. Se nos mantemos apenas em três ou quatro links, realmente estamos usando a Internet? Justamente, uma forma divertida e experimental de se perder na web é o buscador Marginalia. Devem existir dezenas de buscadores alternativos –que merecem até outro post– mas este tem algo particular, pois prioriza conteúdo não comercial, não indexado pelo Google. Fundamentalmente, sites velhos, estáticos e leves que ficaram completamente soterrados sob quilos de JavaScript. Especificamente, a opção "Random" da busca nos traz coisas bastante particulares, sites que parecem tirados de outra era.

As redes são nossas

A comunicação digital sempre foi a base da Internet, mas hoje está monopolizada pelas grandes tecnológicas, que nos impõem suas formas de habitá-las. Por serem ecossistemas fechados e privados, não funcionam com nenhum protocolo, portanto devemos nos adequar às suas regras para nos conectarmos. Mas há pelo menos uma década que vêm se desenvolvendo diferentes redes sociais descentralizadas apoiadas em padrões da Internet, amigáveis com os internautas, de baixo consumo de dados e de computação, e majoritariamente autogestionadas de forma comunitária.

Mastodon, PixelFed, PeerTube e outros mais utilizam o protocolo ActivityPub, um padrão da Internet desde 2018 que permite a intercomunicação entre plataformas. Ou seja, a partir de sua conta do Mastodon você pode, por exemplo, seguir os vídeos do Cybercirujas que são publicados no PeerTube e até mesmo comentá-los sem possuir usuário naquela instância. Algo como comentar com sua conta do Facebook em um vídeo do YouTube. Essas redes descentralizadas também podem ser consideradas dentro da Internet pequena, e existem dezenas de clientes de PC e mobile para utilizá-las.

Uma situação parecida ocorre com outro padrão da Internet mas pensado para mensageria instantânea: XMPP (Extensible Messaging and Presence Protocol) data do final dos anos '90. Foi utilizado pelo Google em seu Gtalk e hoje é usado por baixo do Facebook Messenger, do chat do Nintendo Switch e vários outros. Assim como com o correio eletrônico, existem centenas de provedores que oferecem um usuário@servidor que pode ser utilizado para conversar em tempo real, enviar imagens, vídeo, notas de voz, videochamadas, chats em grupo e é claro, mensageria criptografada. É necessário apenas criar uma conta em algum servidor, entrar em salas e baixar algum cliente para PC ou Android (recomendo Gajim para desktop e Monocles para mobile).

Navego a rede desde que tenho uns 11 anos, quando em casa meu irmão mais velho conectou pela primeira vez um cabo de telefone ao modem externo de 28kbps plugado em um Pentium com Windows 95. Desde então nunca pude parar de navegar a rede e me perder em listas de links, recomendações, postagens em sites, publicações em fóruns, chats perdidos e downloads de todo tipo. Olhar para o passado e lembrar disso não significa uma nostalgia por algo que já não existe mas sim um caminho para reencontrar.

Se pegarmos algum jovem de menos de 20 anos, provavelmente não saiba o que é Internet ou a associe exclusivamente com o ecossistema das grandes tecnológicas, e aí está o problema. Se a rede continuar sendo dominada pelos oligarcas da computação, cada vez será mais difícil acessá-la sem passar por seus pedágios. Por isso é crucial que propiciemos e difundamos espaços reais da Internet, regidos por protocolos e padrões abertos, e operados por comunidades e pessoas. A soberania cognitiva também recai em poder habitar espaços soberanos e não dirigidos por quem justamente opera contra nossa psique.

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