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Terror analógico: a era do VHS como instrumento do trauma

Um passeio pelas obras mais arrepiantes do terror analógico: VHS, creepypastas e mitos da internet.

Por Facundo Dell Aqua · 30 oct. 2026 · 15 min

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Finalmente aconteceu. O tempo nos alcançou, e do jeito que sempre tememos. Dor nos ossos, articulações que começam a glitchar, cabelos brancos que surgem como lembrete de que, como disse Nick Cave, “All things move towards their end”, mas o pior de tudo é que ele nos transformou em criaturas que, por mais que neguem mais vezes do que Pedro negou Jesus, ficaram melancólicas, nostálgicas, ancoradas em maior ou menor medida em um passado idealizado.

Mas isso não é privilégio exclusivo dos mastodontes nascidos nos anos oitenta que vamos caminhando lentamente em fila rumo ao consultório do clínico geral. As ondas de nostalgia banham constantemente o mundo das mídias que consumimos. Vocês sabem: a estética, o tom, o feeling de um mundo perdido que pode ser o dos anos oitenta, o dos noventa e, à medida que nos aproximamos do fim da década, a revelação de que Avril Lavigne pode ser vintage. Horror, o mais absoluto horror.

E falando em horror, há um fenômeno que vem se materializando há muito tempo na internet (na época em que existia uma internet viva e constantemente mutante) por meio de fóruns e canais muito pequenos do YouTube. É o terror analógico, um gênero que imita e se baseia nas formas e na estética de documentários, vídeos institucionais, transmissões de rádio e televisão e formatos de câmera na mão para evocar uma atmosfera que parece perdida no tempo e totalmente irrecuperável. Há algo no analógico que se opõe por completo à nossa sociedade da urgência, da falta de atenção e dos formatos hiper-resumidos e adaptados ao espectador que gosta de dar as costas para a televisão. Ou seja, o terror analógico busca gerar algo que parece ainda mais distante que os dinossauros. Esse é o abismo intransponível que separa o mundo das locadoras do mundo dos streamings.

Há algo no analógico que se opõe por completo à nossa sociedade da urgência, da falta de atenção e dos formatos hiper-resumidos e adaptados ao espectador que gosta de dar as costas para a televisão.

Então talvez seja isso que gera tanta atração por esse tipo de gênero de horror. Basta perguntar aos mais novos o que os assusta e vamos nos deparar com escritórios noventistas infinitos ou senhores de três metros sem rosto que aparecem em fotografias em preto e branco. A evocação de uma experiência muito privada e pessoal de vivenciar o impossível sem algoritmos nem estatísticas de consumo. Você diante do sobrenatural, mediado por uma foto, uma câmera, uns slides mal desenhados por um funcionário público mal pago.

Neste artigo vamos tentar apresentar o conceito de terror analógico a quem nunca o experimentou, ao mesmo tempo que buscamos outros pontos de análise para quem já é craque na arte de emular a era do VHS como instrumento de trauma. Longe de ser um guia definitivo, é um panorama das obras mais fáceis de acessar (quase todas têm legendas em espanhol) e das que servem de porta de entrada para formas mais complexas do gênero.

Mas vamos começar pela origem de tudo, uma época em que os videocassetes reinavam supremos num canto da nossa casa.

Aquele chiclete de que você gosta (vai voltar à moda)

Graças à passagem do tempo, mas também à apreciação e à análise do gênero de terror, podemos citar como primeiros exemplos (antes da ideia de um terror analógico) peças fundamentais como A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1998, Eduardo Sánchez e Daniel Myrick), um elemento crucial para entender o horror visto em primeira pessoa por meio de dispositivos analógicos (ou pré-historicamente digitais). Um filme cuja ideia central estava na desorientação, na paranoia e numa tensão que parecia se transferir para uma série de câmeras e microfones que bem podiam estar adulterados, fazer parte de uma farsa, de uma piada de mau gosto ou servir de conduto para forças que não eram deste mundo.

Poucas vezes um canto de parede deu tanto medo quanto o do porão de Rustin Parr

Mas talvez o mais transcendental do filme de Sánchez e Myrick tenha sido a campanha de marketing, algo que só podia existir no fim do século e que teve efeito em países onde a internet ainda não tinha se popularizado tanto, como o nosso. A ideia de que o filme era REALMENTE um trecho de material perdido em circunstâncias trágicas levou uma geração inteira ao cinema pensando que, como tinha acontecido com a geração anterior com “Faces of Death” (1978, John Alan Schwartz), estávamos vendo os últimos momentos de pessoas de verdade. Como eu disse antes, uma inocência mais difícil de replicar do que o DNA de um dinossauro. Então, talvez, você tivesse a ideia de que não era verdade, mas nunca podia ter 100% de certeza. Sempre ficava a dúvida: isso não, mas aquilo sim, e assim por diante.

Há um poder enorme na capacidade do terror analógico, especialmente no formato de found footage, de um voyeurismo letal, de nos fazer acreditar que estamos testemunhando algo que ninguém mais deveria ver. Por isso bate tão forte aquele final que já virou peça fundamental do gênero, em que a personagem Heather chega ao porão da casa em ruínas de Rustin Parr e encontra o personagem Josh virado para a parede. E, segundos depois, um golpe seco, a câmera que cai, fade para preto e os créditos. “Tenho medo de fechar os olhos e tenho medo de abri-los”

E anos depois, o adolescente desprevenido topava nas madrugadas da TV a cabo com um filme que o levava de volta a esse trauma, mas numa história que se afastava da bruxaria e da sombra do demônio para trazer algo terrível vindo de além das estrelas. Porque foram vários os que toparam com Alien Abduction: Incident in Lake County (1998, Dean Alioto), achando que estavam vendo algo proibido. E, embora seja anterior ao filme de Blair, por ser feito para a televisão, com estilo de filme caseiro e uma economia de recursos impressionante, a gente não entendia o que estava acontecendo. Principalmente porque apareciam supostos entrevistados falando da veracidade do filme.

Mas é claro que era ficção; era inclusive um remake de um filme de 1989 do mesmo diretor: “The McPherson Tape”, que contava a história de uma família no Dia de Ação de Graças que testemunhava a descida de uma nave extraterrestre e os experimentos que as criaturas faziam com o gado, para depois ter que sobreviver a um cerco com um final quase tão traumático quanto o do porão de Rustin Parr. Quem viu sabe. Absolutamente aterrorizante. E não ajudava o fato de ser baseado num caso supostamente “real”, o da família Kelly Hopkins, que em 1955 começou a atirar contra uma série de criaturas que tentavam entrar na casa, entre os típicos alienígenas cinzentos e uns leprechauns acrobáticos.

E assim podemos continuar, como uma montanha-russa ao contrário, indo muito rápido e muito forte rumo ao passado, com casos como Ghostwatch (1992, Lesley Manning), uma falsa transmissão ao vivo com jornalistas sérios fingindo o caso de uma casa assombrada e de um fantasma que habitava os encanamentos. O artifício foi tão eficaz que as pessoas ligaram apavoradas para a BBC. No final, a transmissão usava o recurso de quebrar a quarta parede, em que o fantasma usava a transmissão para chegar à casa do espectador. Imaginem o horror desses ingleses: gente ficou traumatizada, crianças não conseguiram dormir. Um milhão de ligações e a proibição de reexibir o programa até dez anos depois. Algo parecido com a famosa transmissão de “A Guerra dos Mundos” que Orson Welles fez no Mercury Theatre em 1938, em que fez acreditarem que os marcianos tinham invadido a Terra.

Marble Hornets: O Homem Alto me obrigou

Até agora fizemos uma revisão de obras que poderiam entrar no gênero do que chamamos de “terror analógico”. Mas é só com a chegada da era massiva da internet que os fóruns se enchem de material criativo pronto para ser explorado décadas depois. E é no site “Something Awful” que acontece um concurso para postar imagens paranormais editadas no Photoshop. Ali o usuário Viktor Surge (Eric Knudsen) posta uma foto em que se vê um grupo de adolescentes correndo e uma figura misteriosa atrás. A legenda dizia: “Não queríamos ir, não queríamos matá-los, mas seu silêncio persistente e seus braços longos nos aterrorizaram e nos confortaram ao mesmo tempo”. Depois uma data, 1983, e “Fotógrafo desconhecido, possivelmente morto”. A imagem que aparece ao fundo, um ser alto de braços longos e rosto totalmente em branco, sem traços faciais, seria chamada de Slenderman e logo viraria lenda.

O poder das creepypastas, os relatos anônimos ou comunitários construídos na internet, está na capacidade de ser uma mensagem encontrada numa garrafa. Em geral são escritas em primeira pessoa, tentam passar por algo real, o caso de uma pessoa comum cara a cara com o alucinante, e carecem de toda a parafernália da literatura tradicional. Não buscam se vender nem se massificar por meio da publicidade, nem tentam colocar o autor num lugar de veneração. É só a história e o poder das lendas folclóricas e dos mitos urbanos que se tecem em torno do que não está completamente claro ou carece de um motivo ficcional clássico.

O poder das creepypastas, os relatos anônimos ou comunitários construídos na internet, está na capacidade de ser uma mensagem encontrada numa garrafa.

No caso do Slenderman, por ser uma entidade misteriosa com um propósito bastante óbvio (enlouquecer, ferir, raptar ou matar crianças ou adolescentes) e sem muito contexto ao redor, ele serviu para que o espectador preenchesse os espaços em branco de tal maneira que muitas vezes se colocava ali dentro. O melhor exemplo disso está no documentário “Beware the Slenderman” (2016, Irene Brodsky), que narra o ataque de duas meninas a uma terceira, que foi emboscada a facadas e, felizmente, sobreviveu. Quando perguntaram o motivo do crime, elas responderam: “O Slenderman nos obrigou”. O que dá ao mito criado por Knudsen a nada invejável capacidade de ter saltado das telas para o true crime.

Mas voltando à ficção, muito mais saudável, temos várias adaptações e obras relacionadas, como o filme homônimo de 2018 de Sylvain White, ou os videogames "Slenderman: The Lost Pages" e "Slenderman: The Arrival". Mas poucas obras tiveram a importância de “Marble Hornets” (2009, Troy Wagner & Joseph DeLage), um pseudodocumentário em partes, cujo primeiro episódio foi publicado apenas 10 dias depois do post original. Aqui se conta a história de um cineasta que abandona o projeto que dá nome à obra e desaparece misteriosamente, deixando uma série de vídeos para o protagonista, que os posta na internet enquanto investiga o paradeiro do antigo amigo. Aí ele começa a perceber uma série de anomalias e a presença de uma entidade que parece estar perseguindo o diretor e enlouquecendo-o aos poucos, sempre à espreita nas sombras.

Você nunca está realmente sozinho.

A série é dividida em entradas em que o protagonista analisa os vídeos que recebeu do diretor do filme e vai desvendando um mistério que pode acabar fazendo dele mais uma possível vítima. São 87 capítulos no total, e ela tem a particularidade de contar com uma série alternativa (To The Ark), que muitas vezes responde aos vídeos postados como um canal antagonista que esconde algumas das respostas. Isso, somado à comunidade que foi se formando com o passar do tempo, dá à obra uma qualidade de ARG (Augmented Reality Game) em que o espectador se sente parte do esforço de revelar o enigma.

Local 58: Fim da transmissão

Se Eric Knudsen é um dos pais das creepypastas, Kris Straub não fica atrás: “Candle Cove” é uma dessas histórias de fórum que fala de um programa infantil exibido anos atrás do qual não existe nenhum registro, exceto na memória das crianças que o viram. Obviamente é um programa maldito que logo começa a rastejar para a vida de quem foi exposto ao seu sinal. Não surpreende, então, que “Local 58” (2015) use a ideia de um canal comunitário à meia-noite em que começam a acontecer coisas estranhas e algo se infiltra na transmissão como arauto de forças estranhas.

A obra de Straub segue uma estrutura definida: primeiro há uma transmissão com o nome do canal e a grade de horários, depois é apresentado um segmento que pode ser: um programa infantil, a previsão do tempo, um comunicado do governo ou um show sobre astronomia. Todos são feitos com vídeos e fotos de banco de imagens, com efeitos livres de direitos autorais e trechos de filmes ou músicas em domínio público, embora haja alguns exemplos originais, criados inteiramente para o Local 58. Mas tudo basicamente obedece a um mesmo princípio: como alterar, misturar e fundir conceitos já existentes e dar a eles a forma de um pesadelo existencial, interno e cósmico ao mesmo tempo.

Um dos segmentos do Local 58, o canal que é melhor tirar da grade.

Há um componente literário que se impõe sobre todo o resto. O poder da palavra está presente de forma literal, porque o medo vai sendo gerado pelo que a gente lê na tela. O caso de “Containment” é um dos mais bem-sucedidos: um comunicado institucional do governo que se infiltra no meio da programação. Na hipótese de uma “derrota total dos Estados Unidos”, os cidadãos são instados a matar seus entes queridos e a si mesmos para “triunfar espiritualmente mesmo depois de vencidos”. Aqui, a frieza do discurso, as consequências terríveis dele e a estranheza que esse cenário provoca, para o qual forças ocultas se preparam, são os elementos que constroem a tensão e o horror.

Apesar do seu caráter de analogia, há um fio condutor por trás das histórias que o Local 58 TV conta e que desembocam no segmento mais difícil de assistir (Close), que mostra em tempo real os últimos 30 minutos de uma missão de pouso em um cometa que orbita a Terra. É cansativo, tem momentos de monotonia extrema, mas vai aumentando a dose de medo até chegar a uma conclusão que será altamente satisfatória para qualquer um que goste de terror esquisito e de ficção científica alucinógena.

Gemini Home Entertainment: Materiais para um pesadelo

Se existe um devedor e ao mesmo tempo uma reviravolta na obra de Straub em Local 58 TV, ela só pode ser a série de vídeos educativos chamada “Gemini Home Entertainment” (2019), que segue enchendo as prateleiras de algum mundo condenado à destruição total até hoje. Criada por Remy Abode, essa coleção de documentários e infomerciais narra, em seus diferentes segmentos, a história de um planeta Terra que aos poucos vai sucumbindo à interferência de alguma forma de vírus espacial, uma entidade orgânica cósmica que está engolindo a galáxia.

Gemini constrói sua tensão com texto. A única coisa de que precisa para tecer a atmosfera do medo é informação. No primeiro episódio, “World’s Weirdest Animals”, um documentário absolutamente inofensivo, começa falando de alguns tipos particulares de galinhas e corujas, para terminar com os “Woodcrawlers”, criaturas como carrapatos lovecraftianos que entram na sua casa para fazer ninhos e acabam roubando a sua voz. Depois, em um dos poucos momentos de found footage da série, aparece a “Gente Falsa”, possíveis infectados pelas criaturas que tentam, desajeitados, imitar um ser humano e acabam perseguindo o coitado que está filmando.

Gemini constrói sua tensão com texto. A única coisa de que precisa para tecer a atmosfera do medo é informação.

É inegável que a influência de Local 58 TV se vê de longe, especialmente em segmentos como “Storm Safety Tips” ou “Our Solar System”, mas longe de ser plágio, acho que funcionam como boas peças complementares para a mitologia de Gemini e são uma alternativa interessante às da série "original". São formatos parecidos que servem a seus respectivos propósitos, como a ideia de uma empresa de tecnologia ligada à detecção de tempestades (Harbinge) ou a do vírus espacial que está infectando os planetas mais distantes do sistema solar em rota de colisão direta com a Terra.

O universo criado por Abode é muito bem interconectado entre os diferentes vídeos, nos quais todos têm um conceito visto antes ou que desenvolve ainda mais a mitologia preexistente. É, como muitas dessas séries, uma obcecada por dois elementos bem identificáveis: a nostalgia e o terror cósmico. Tudo tem uma aresta existencial que, neste caso, é uma entidade primordial que existe nas margens do nosso sistema solar e cujo avanço é inexorável e abissal.

E tudo isso contado com gráficos e slides. Embora Gemini Home Entertainment tenha momentos em que joga tudo no ataque, com videogames imaginários, vídeos supostamente encontrados ou filmagens de arquivo, quase sempre se sustenta em elementos estáticos e texto fixo: o resto, que o espectador imagine. Uma mitologia imensa que vai do cósmico até uma espécie de folk horror, com direito a acampamento amaldiçoado, a visita de estranhos homens de terno e luzes que podem levar você a um lugar muito pior que a morte.

The Oldest View: Além das lâmpadas fluorescentes

Como no caso de Eric Knudsen e seu Slenderman, aquilo de que “uma imagem vale mais que mil palavras” também aconteceu com o culto por trás dos Backrooms. A imagem de uns escritórios amarelados e desprovidos de qualquer tipo de presença humana foi postada em 2019 num fórum do 4chan com um texto que falava de um lugar onde você caía se fizesse no-clip (atravessasse a realidade). Quilômetros e quilômetros de escritórios vazios gerados aleatoriamente sabe-se lá por quem. E a ideia de que, se você ouve algo, é porque esse algo já te ouviu e você vai morrer. Um baita cagaço. Mas foi finalmente Kane Parsons quem alcançou a fama com um vídeo chamado “Backrooms: Found Footage”, postado em 7 de janeiro de 2022 no YouTube.

O caso de Parsons e dos Backrooms é mais que conhecido. Não à toa a adaptação da A24 dirigida pelo próprio Parsons foi um dos filmes de maior bilheteria de 2026. Mas o talento desse rapaz, que começou o projeto com apenas 16 anos, pode ser visto claramente em sua obra seguinte: “The Oldest View”, uma série de seis capítulos em que um youtuber (interpretado pelo próprio diretor) descobre um túnel no meio de um campo que desce vários quilômetros abaixo da terra e que culmina em um… shopping abandonado. Sim, é verdade, pode soar como algo devedor demais do conceito liminar, mas Parsons faz algo muito difícil: mostrar um terror que ao mesmo tempo é triste e melancólico, preso a um lugar real (o Valley View Center, em Dallas), finalmente demolido em 2023, e que Parsons e seus amigos reconstruíram usando Blender.

A melancolia e o horror encarnados em um boneco abandonado debaixo da terra.

Aqui o conceito de “terror analógico” pode parecer difuso. Mas, como na magia das creepypastas, Parsons busca o ontem, a ressurreição do que já não existe, neste caso não por meio de um estilo (ainda que o found footage seja um), mas de algo físico, real, um lugar como um shopping onde muita gente deixou parte da vida e que agora só existe em um mundo sepultado debaixo da terra, onde ninguém o vê.

Não é o terror dos monstros ou da liminaridade, mas simplesmente da passagem do tempo e da sensação de que tudo caminha inexoravelmente para o seu fim e não podemos fazer nada para impedir.

Parsons evoca a sensibilidade do terror analógico e, pessoalmente, me impressiona que venha de alguém tão jovem. É quase um círculo completo: um adulto obcecado por uma época que não viveu, mas que de alguma forma reconhece, sintoniza e emula essa nostalgia à perfeição. É muito poderosa a sensação que os trechos de “Life Of A Giant” ou o passeio do próprio Parsons pelo terreno demolido do Valley View Plaza provocam. Não é o terror dos monstros ou da liminaridade, mas simplesmente da passagem do tempo e da sensação de que tudo caminha inexoravelmente para o seu fim e não podemos fazer nada para impedir.

The Mandela Catalogue: A morte virá e terá a forma de um infomercial

Um apito constante que se corta e dá lugar a uma voz monótona, maquinal, que desenvolve uma série de avisos para o público em geral. Filtro de VHS, rostos que quebram o vale da estranheza, cortes de transmissão para disparar algum flash macabro no espectador, vozes que se deformam, mensagens simpáticas e bem-humoradas que quebram por completo a atmosfera. Esses são alguns dos ingredientes que fazem de “The Mandela Catalogue” (2021, Alex Kister) não só um fenômeno da internet em todas as redes sociais, mas também o fundador de um tipo de terror (depois replicado até a exaustão, mas que ainda funciona muito bem).

Tudo começa com uma paródia macabra da anunciação, em que uma versão monstruosa do anjo Gabriel aparece para uns pastores com uma mensagem ominosa. O mesmo acontece quando umas mulheres enlutadas visitam o túmulo de Jesus e se deparam com uma visão absolutamente sinistra do Messias. Este é um ponto de virada da história humana, a chegada de umas entidades chamadas “Alternates” que, como todo bom Doppelgänger, não só substituem os originais como os levam à morte por meio de armadilhas e torturas mentais preparadas para destruí-los psicologicamente.

Obviamente, boa parte da obra de Kister é feita em found footage, mas o grosso da atmosfera é obtido por meio de imagens estáticas, seja em representações de ligações, avisos ao público, coleta de evidências e outros tipos de registros. Conta-se com informação muito limitada e não se especifica como ela chega até nós, mantendo assim um mistério do qual só nos é revelado o justo e suficiente. Por exemplo, uma das coisas que mais separa "The Mandela Catalogue" do resto das obras citadas é o uso de filmes infantis católicos para nos contar a mitologia desse mundo onde parece haver, desde pouco depois da criação, a ameaça de entidades que se infiltram entre nós para nos destruir e nos substituir.

Além disso, há uma constante manipulação do espectador que pode ser em parte pela capacidade dos Alternates de corromper qualquer tipo de sistema, seja uma televisão, um rádio ou um GPS, ou porque há diretamente uma decisão do poder de deixar as coisas seguirem seu curso (com vídeos oficiais que recomendam não intervir diante de um pedido de socorro). Ao longo dos oito capítulos que compõem a série, vemos um uso absolutamente minimalista de imagens e sons que em nenhum momento deixa de chocar com cenas como a de uma mãe se enforcando ao ver o filho desaparecido do berço ou a de um cara estourando os miolos diante de um Alternate que não para de bater na porta do quarto. Tudo feito com muito pouco e conseguindo muito. Inteligência a serviço da imaginação e do trauma.

Em resumo

Como dissemos no início, este não é um guia definitivo nem de longe. É uma aproximação de um gênero que chamou a atenção de Hollywood e, até que acabe corrompendo-o, poderemos vivê-lo em seu formato original, puro, intocável. Alguns outros casos, por exemplo, são os de “Fake Documentary Q” (2021, Daichi Minaguchi), que reúne diferentes segmentos de horror japonês, como o nome indica, imitando um documentário, que vão do desaparecimento impossível de uma mulher a uma fita amaldiçoada perdida nas prateleiras de uma locadora que mata quem a assiste. Também encontramos coisas como “Samosbor”, terror soviético ambientado em uma “Gigakhrushchyovka” (um prédio infinito) com fortes influências de creepypastas, como as da SCP Foundation.

E embora o olho monstruoso e aberrante de Hollywood esteja pousado sobre o gênero depois do sucesso do filme de Backrooms de Kane Parsons, dá para mergulhar com calma nessas águas escuras, por muito tempo, encontrando mais e mais joias escondidas. Elas passarão de boca em boca, comunidades serão construídas e se propagarão, como vírus vindos de além do espaço. Só é preciso um pouco de imaginação e um pouco de loucura. As sementes jazem nas profundezas da internet. Enquanto restar algo de humano, florescerão coisas tão maravilhosas quanto terríveis.

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